USP homenageia e diploma estudante de Natal morta na ditadura

A Universidade de São Paulo (USP) homenageou, dia 3 de abril, a estudante potiguar Lígia Maria Salgado Nóbrega, perseguida e morta pela ditadura militar em 1972, aos 24 anos. A ela foi concedido um diploma honorífico post-mortem.

A estudante nasceu em Natal, mas viveu em São Paulo desde criança, tendo cursado Pedagogia na USP. A homenagem póstuma realizada pela universidade faz parte do projeto Diplomação da Resistência, que tem o objetivo de conceder diplomas honoríficos a 31 estudantes da USP mortos durante a ditadura militar brasileira, a fim de reparar as injustiças e honrar a memória dos ex-alunos. Segundo a Comissão da Verdade da Universidade de São Paulo, 39 alunos foram assassinados pelos militares, além de seis professores e dois funcionários.

Presente na cerimônia, o irmão de Lígia, Olímpio Salgado Nóbrega, lembrou com carinho e emoção da menina.

“Falar da Lígia é ao mesmo tempo triste e alegre, porque me faz lembrar uma menina extremamente doce, mas que infelizmente foi tirada do nosso convívio de uma maneira cruel pela ditadura militar. Ela morreu com 24 anos de idade, era quase uma criança. Eu, naquela época, era um pouco mais do que um moleque. A Lígia, ao mesmo tempo que faz eu ficar emocionado, me dá um orgulho muito grande da minha irmã. Eu penso no samba-enredo da Mangueira de 2019, porque ela foi uma das que foram de aço nos anos de chumbo, e isso aí é um orgulho enorme que eu tenho”, disse. 

Olímpio comentou sobre a trajetória acadêmica e profissional da irmã e disse que o objetivo de Lígia sempre foi a educação:

“O objetivo dela era a educação, então ela acabou entrando na Faculdade de Educação da USP em 1967. De 1967 a 1970, ela militou no movimento estudantil. Ela fez parte do Centro Acadêmico, lutou seriamente e era uma pessoa extremamente generosa e, ao mesmo tempo, muito firme nas suas posições. Então, naquilo que ela acreditava, ela ia lutar até o fim”, afirmou.

“Era quase uma criança”, disse Olímpio Salgado Nóbrega, irmão de Lígia | Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Notícia da morte pela TV

A família só soube da morte de Lígia por meio de uma reportagem na televisão. A responsável por receber o diploma de Pedagogia foi a irmã de Lígia, Maria de Lourdes Salgado Nóbrega, que recebeu o documento das mãos de Hiroito Salomão da Silva, representante do Centro Acadêmico Professor Paulo Freire (CAPPF). Maria de Lourdes contou como a morte da irmã abalou a família: seu pai, Gorgonio Nóbrega, morreu menos de um ano depois. A mãe, Nali Ruth Salgado Nóbrega, entrou em depressão, e a irmã caçula preferiu viver em outro país.

Carlota Boto, diretora da Faculdade de Educação da USP, repudiou a ditadura e disse que Lígia destacava-se por sua capacidade intelectual e por uma visão arrojada sobre o campo da educação e dos métodos de ensino.

“É preciso, com todas as nossas forças, lembrar esse passado, não para nos reconciliarmos com ele, mas para podermos fazer frente a aventuras autoritárias que se apresentam em nosso tempo presente. Não à ditadura, não aos fascistas e não à anistia de golpistas. Não a qualquer tentativa de abolição do Estado de Direito. Que possamos celebrar nossa democracia como uma conquista permanente, indelével e inabalável do povo brasileiro. Que a memória de Lígia possa acalentar os sonhos de uma juventude que clama por justiça social e por uma sociedade digna, igualitária e plural, na qual o direito à diferença possa brotar exatamente do compromisso com a igualdade”, apontou. 

“Lígia teve sua vida ceifada e foi dela retirada a utopia do futuro. Que todas as pessoas tenham direito ao seu futuro, o futuro de uma sociedade mais justa, mais livre e mais igual. Que possamos, todos nós aqui, reunidos nesse auditório, celebrar o reconhecimento desta diplomação simbólica, em nome da qual prestigiamos todos os jovens que tombaram nessa página infeliz de nossa história e que tudo isso nunca mais aconteça. É por esta razão que ainda estamos aqui”, reiterou.

Mariana Faria Dias, representante do Diretório Central dos Estudantes (DCE Livre da USP), comentou que é de uma geração que só pode estar lutando hoje porque outras pessoas como Lígia colocaram suas vidas à disposição da luta por democracia.

“O DCE da USP tem no seu nome a palavra ‘Livre’, que no momento do passado, era uma palavra de demarcação, porque demarcava que a entidade era livre da força do governo, que queria criar outra entidade para cercear o movimento estudantil. E que hoje a palavra permanece num sentido de memória. E acho que todas essas diplomações que foram acontecendo, e essa é mais uma dessas, cumprem esse papel tão importante da luta por memória, que, de fato, a gente tem que ter como tarefa eterna para todos nós.”

Ana Lanna, pró-reitora de Inclusão e Pertencimento da Universidade de São Paulo, foi mais uma a condenar o regime militar e os “horrores da ditadura e do fascismo”.

“Se a universidade quer, de fato, discutir e participar dos processos de construção de futuro desse país, de futuro desse mundo, de resistência aos horrores da ditadura e do fascismo, que nos rondam sempre, porque o ovo da serpente permanentemente choca e está entre nós, eu acho que uma solenidade, um momento como esse, onde, para além das nossas diferenças e para além das nossas trajetórias, nós podemos estar juntos, ele mais do que uma homenagem, é uma atualização e é uma perspectiva de futuro”, apontou.

Vice-reitora da Universidade de São Paulo, Maria Arminda do Nascimento Arruda, afirmou que a vida universitária pressupõe liberdade e direitos. Ela questionou como a ditadura pôde ter acontecido e afirmou que é preciso reafirmar o repúdio a esse período.

“Como ousaram torturar, matar, destruir vidas, destruir famílias, desaparecer com corpos? Nós temos direito aos nossos mortos. Como tiveram essa ousadia? E quando eu vejo o Brasil de hoje, eu percebo que ainda há muitos que continuam ousando. E qual é a melhor resposta para isso? A resposta é reafirmarmos o nosso repúdio ao acontecido. É afirmarmos que não aceitaremos dentro das nossas forças os perigos que nos rondam”, enfatizou.

A cerimônia de diplomação honorífica da estudante de Pedagogia Lígia Maria Salgado Nóbrega lotou o auditório da Faculdade de Educação – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Quem foi Lígia Maria Salgado Nóbrega

Segundo o site Memorial da Resistência, Lígia ingressou em Pedagogia na USP em 1957, “destacando-se por sua capacidade intelectual, por seu empenho em modernizar os métodos de ensino e por sua liderança no Grêmio de Pedagogia”.

Em 1970, passou a militar na Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), organização de resistência à ditadura militar que contou, dentre outros nomes, com Carlos Lamarca e a ex-presidenta Dilma Rousseff. 

Por usa atuação em uma organização de orientação guerrilheira, a potiguar criada em São Paulo passou a viver na clandestinidade e mudou-se para o Rio de Janeiro. Morreu aos 24 anos, em 29 de março de 1972, quando estava grávida de dois meses, durante uma operação policial realizada em uma casa que funcionava como aparelho da VAR-Palmares. 

O episódio ficou conhecido como Chacina de Quintino. A ação foi organizada por agentes do Destacamento de Operações e Informações (DOI) do I Exército, contando com o apoio do Departamento de Ordem Política e Social do Estado da Guanabara (DOPS/GB) e da Polícia Militar (PM). 

De acordo com o relato presente no Memorial da Resistência, depois de cercarem o local, os agentes entraram na residência e atiraram contra os que estavam dentro da casa. Junto com Lígia foram mortos outros dois integrantes da VAR-Palmares: Antônio Marcos Pinto de Oliveira e Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo. James Allen Luz, militante da mesma organização, encontrava-se no local mas conseguiu escapar do cerco. 

Segundo a versão oficial divulgada pelos órgãos do Estado à época, Lígia teria morrido por disparo de arma de fogo depois de ter reagido à ação dos agentes dos órgãos de segurança. Contudo, as investigações indicaram que a estudante grávida morreu depois de ter sido ferida por disparos durante a invasão do aparelho da VAR-Palmares em Quintino.

Em entrevistas realizadas pela Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-RJ), moradores de Quintino que eram vizinhos da residência à época dos fatos relataram que a polícia já se encontrava no bairro desde o final da tarde do dia 29 de março, preparando a operação que ocorreria à noite. Os moradores ainda afirmaram que os barulhos dos disparos não vieram de dentro da casa onde os militantes se encontravam, mas do lado de fora da casa, de onde partiu a ação dos agentes do Estado. Mais recentemente, manifestação apresentada pela equipe de perícia da Comissão Nacional da Verdade (CNV), baseada em documentos produzidos na ocasião dos fatos por órgãos do Estado, apontou que não havia nenhum vestígio de pólvora nos corpos das vítimas nem armas no local, o que permite inferir que não houve troca de tiros, tratando-se de uma ação unilateral dos agentes da repressão com o objetivo de executar os militantes. 

O corpo de Lígia deu entrada no Instituto Médico Legal (IML) como desconhecido no dia 30 de março, mas a família só tomou conhecimento de sua morte posteriormente, através dos noticiários de televisão. O reconhecimento do corpo foi realizado por seu irmão no dia 7 de abril. Os restos mortais de Lígia Maria Salgado Nóbrega foram enterrados no cemitério de São Paulo.

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