Inaugurada, barragem de Oiticica reescreve vida no sertão

O sol forte e o calor não faziam ninguém desanimar na manhã daquela quarta-feira (19), dia de São José, na comunidade de Nova Barra de Santana, município de Jucurutu, a cerca de 245 km de Natal. Desde cedo, aquela minicidade incrustada no sertão potiguar — com casas que ficaram prontas há cerca de dois anos — se agitava com moradores locais e gente de fora que estava ali por um motivo. Dentro de poucas horas, Nova Barra de Santana receberia seu visitante mais ilustre, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), para inaugurar a barragem de Oiticica, obra pensada há mais de 70 anos e que só em 2025, enfim, ficaria totalmente à disposição do povo.

De tanto tempo para começar a ser feita, se poderia até pensar que tudo não passava de miragem, ilusão, resultado do efeito do calor. Nada disso. Com capacidade para armazenar 742,6 milhões de metros cúbicos, suas águas já correm naquele reservatório que já se apresenta como o segundo maior do Rio Grande do Norte. Na quinta-feira (20), um dia depois da inauguração oficial, os dados do Igarn (Instituto de Gestão das Águas do Rio Grande do Norte) já apontavam um volume atual de 84,7 m³, 11,4% da capacidade total. Uma esperança para agricultoras e agricultores que nasceram, cresceram e envelheceram ouvindo falar daquela barragem, à espera de que um dia ela de fato ajudasse os nordestinos em períodos de seca.

“A gente já tinha ouvido os mais velhos falarem que essa barragem ia ser feita. A gente via que teve projeto, teve decreto, e já dava um pouco de esperança quando o pessoal chegava, trabalhava, e essa barragem nunca tinha sucesso de continuar a ser feita”, diz José Benedito Apolinário, 64, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Jucurutu.

José Benedito é agricultor familiar e filiado ao sindicato desde 1983 | Foto: Vlademir Alexandre

“Através da presidente Dilma, quando deu a ordem de serviço nessa barragem, daí para cá se começou. Aí a gente foi criando fé que ela ia sair. E depois que o presidente Lula voltou ao poder de novo e os brasileiros elegeram de novo o presidente da República pela terceira vez no país, a gente teve fé que ela ia sair, e hoje está sendo inaugurada”, conta.

Em seu funcionamento, Oiticica deve abastecer diretamente 43 municípios e beneficiar 330 mil pessoas, incluindo o presidente do sindicato, que antes dependia principalmente do rio Piranhas — perenizado agora pela nova construção.

“Antes o rio secava. Ele não trazia mais água nem para tomar, só se fosse de cacimba. E hoje, no leito do rio, com as comportas d’água dela, que já tomou a água desde o ano passado, que o rio Piranhas não falta mais água”, aponta o homem do campo.

Segundo seu José Benedito, houve tempos em que Jucurutu teve que ser abastecida por carros-pipa, devido à falta d’água. Agora a realidade deve ser outra.

“Vai trazer um grande benefício para os agricultores, para a criação de bovino e outras atividades rurais, para a plantação de capim, feijão, milho, batata doce”, diz.

Em seu sítio na zona rural de Jucurutu, na outra ponta do município em que está localizada a barragem, Rui Lopes, 52, também vê o momento com expectativa de dias melhores. 

“A barragem de Oiticica tem só a ajudar ao Seridó, trazendo a água que é o mais importante. Com a água traz a garantia da gente produzir, principalmente o homem do campo que trabalha com bovinocultura de leite, que é o forte da gente aqui”, diz ele, presidente de outro sindicato, agora o dos produtores rurais, e que se divide entre seu sítio e sua casa na cidade.

“Há alguns anos o rio Piranhas não secava, mas nesse período de seca que houve, desses 10 anos, então ele passou a secar, porque quem dava o suporte a ele era a barragem de Coremas, na Paraíba. E hoje, com a barragem de Oiticica, a gente não vai mais ter esse problema”, diz ele, que tem uma cisterna na sua propriedade e conta que, em algumas localidades, o caminhão-pipa continua tendo que abastecer moradores. 

Rui Lopes se divide entre o sítio na zona rural e o trabalho como condutor de ambulância no hospital municipal | Foto: Vlademir Alexandre

“Tem algumas localidades que não tem água, então ele continua dando essa assistência. E as localidades que tem água, não dá, não precisa. A gente tem umas comunidades também que eram abastecidas do rio Piranhas e com a falta d’água passavam a ser abastecida também por carro-pipas, e hoje vão ser abastecidas pelas adutoras. Vai voltar a funcionar as adutoras. Então vai melhorando a maneira de vida de todo mundo, tanto da zona urbana como da zona rural”, explica. 

A Operação Carro-Pipa é coordenada pelo Exército brasileiro. Segundo informações do portal da operação, o Rio Grande do Norte possui 54 municípios atendidos pelo programa, com 204 carros-pipa e quase 70 mil pessoas beneficiadas. Jucurutu não aparece na lista. 

Rui Lopes conta que, em períodos de seca mais severos, alguns ribeirinhos já perderam tudo que plantaram.

“No período desses anos que vieram de seca, o pessoal que morava na margem do rio Piranhas perdeu o plantio de capim, que aqui o forte é a bovinocultura de leite. Então, todo mundo tem uma plantação de capim-elefante. Teve deles que perderam 100%, 30%, 40%, 60%. Então, foi perdido. E hoje eles estão voltando novamente. Com essa barragem agora, vai dar uma segurança do que você plantar, você colher”, acredita.

O agronegócio, segundo ele, também deve ser impulsionado.

“Nós temos a bovinocultura de leite, a gente tem o peixe da Armando Ribeiro, agora vamos ter o peixe da Oiticica, que é uma fonte de renda muito rica para os pescadores e para o município. E a gente também tem uma parte de frutas, feijão, milho, esse é menos, é a cultura que a gente explora menos aqui no município de Jucurutu. Mas a parte de ovino, bovino, suíno, essa parte é bem explorada. A gente tem uma melhoria grande, significante, porque você tendo água, você pode produzir tudo, então a barragem de Oiticica veio para ajudar a população em geral, tanto a urbana como a rural. O Seridó só tem a ganhar”, define Lopes, um produtor rural que quando não está no sítio também trabalha e enfrenta plantões como condutor de ambulância do hospital maternidade municipal. 

Foto: Vlademir Alexandre

Próximo de onde está o sítio de Rui Lopes vive Francisco de Assis Silva, de 54 anos, com mais de 30 só dedicados ao campo, onde possui um terreno de 50 metros quadrados. Neste início de outono e estação das chuvas, Silva aguarda as águas que vêm do céu para fazer o corte da terra e iniciar o plantio novamente de milho, feijão e capim para o gado. Ele conta que as chuvas fortes começaram no início de março; já perdeu a plantação em períodos de estiagem, mas nunca o gado (“perdi por doença, mas na ração a gente se vira, compra em outros cantos”). Ele não tem cisterna no seu terreno, e diz que de uns anos cá pra a situação da falta de água já melhorou, conta o agricultor, que também trabalha com compra e venda de gados. 

“A gente tem que se sacudir, porque o ganho aqui é muito pouco”, reflete.

Francisco tem pequeno terreno e vive da compra e venda de gados | Foto: Vlademir Alexandre

O drama dos atingidos

Mas Oiticica não é só glória. Antes do evento da quarta, que reuniu além do presidente Lula e da governadora Fátima Bezerra (PT) nomes como o ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, e da Casa Civil, Rui Costa, houve muita disputa e debates acerca do futuro daquelas pessoas que viviam na área inundável da barragem, a velha Barra de Santana.

De acordo com informações da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), a primeira ocupação do canteiro de obras aconteceu em janeiro de 2014, seis meses depois do início da construção; uma segunda ocupação ocorreu em maio de 2014. O “Barracão de Luta e Resistência” foi montado em frente ao canteiro de obras e por mais de 70 dias impediu que a obra seguisse sem que os moradores afetados fossem ouvidos.

O vaqueiro Dinamérico Bezerra, de 46 anos, foi um desses que acompanharam o imbróglio envolvendo o início das obras. 

“Já fazem 13 anos que nós vivemos nessa luta. Teve Barracão da Resistência, tivemos que parar a barragem pra arrumar mais verba. Chegou a verba, e aí vem na luta. E eu, pra falar a verdade, até hoje ainda falto receber a indenização, que não recebi ainda. Eu era morador de uma posse na bacia da barragem, 24 anos de posse eu tinha, aí quando existiu a barragem de Oiticica apareceu dono para essas posses e até hoje eu não recebi minha indenização”, lamenta.

Vaqueiro Dinamérico Bezerra conta que antes tinha gado e plantação em seu próprio terreno e hoje utiliza espaço de outros | Foto: Vlademir Alexandre

Segundo Dinamérico, antes ele tinha tudo, como gado e plantação. Hoje precisa utilizar a terra dos outros. Nascido e criado próximo à bacia da barragem, conta que a saída do antigo local de moradia não foi fácil.

“Muito, muito difícil. Ainda está sendo, né? Foi, não, ainda está. Está tudo arrumadinho, mas o negócio não está fácil, não. Nós éramos estabilizados naquele canto, e hoje nós não estamos estabilizados ainda”, diz ele. 

Dinamérico cita que “tem a casa para morar em rua bonita”, mas lamenta a falta do terreno para as atividades da terra.

“A qualidade de vida antes estava melhor. Agora a moradia hoje está melhor, que é tudo novo, nós não podemos construir com a barragem. Aí hoje está melhor a moradia, agora a condição de vida está pior”, explica.

“A barragem está feita, a obra é muito importante, distribui água para vários municípios, mas agora é a hora deles localizarem o terreno para os proprietários, agricultores, moradores, criadores, a bacia leiteira, que aqui a maioria do povo pobre é beneficiado pela bacia leiteira, que está um pouco vista. Tem que levantar essa bacia leiteira, que é quem vai dar o sustento à zona rural de Barra de Santana, a única renda que tem aqui”, comenta o vaqueiro, que mora na nova casa com a esposa.

É uma situação parecida com a vivida por Joaquim Luiz de França Neto, de 68 anos. No seu relato, Joaquim conta que a velha Barra de Santana começou com seu avô, de quem herdou o nome. 

“Foi ele que fez as latadas, foi ele que fez o desmatamento, foi ele que bateu o tijolo da Barra de Santana e foi ele que quando foi vivo tomou conta”, descreve.

A casa de Joaquim era uma das mais próximas do local onde foi feito o evento com Lula. Do seu alpendre, assistia a movimentação em volta e conversava com amigos.  

“Antes, para mim, dava de 100 a 0 aqui, porque lá [na antiga comunidade] eu tinha um gadinho, eu tirava um leite, tinha muita galinha, tinha guiné, tinha peru, de tudo eu queria comer uma galinha, tinha. E aqui eu não tenho nada disso. Olha, para plantar um pé de feijão, olha onde eu plantei aí”, aponta, mostrando um pequeno espaço ao lado. 

Ainda assim, resignado, diz não ter tido maiores dificuldades para sair de onde vivia.

“Não teve problema. Fizeram a casa aqui e nós saímos pra aqui”.

Já as quase oito décadas de vida de dona Francisca Luiza foram quase todas vividas na antiga comunidade. Hoje aos 77 anos e com dificuldades de se locomover por dores nas pernas, conta gostar mais da nova casa do que da velha.

Dona Francisca Luiza é moradora da Nova Barra de Santana e prefere localidade atual | Foto: Vlademir Alexandre

“Acho melhor aqui do que lá. Porque lá era cavalo, jumento, gado, porco. E aqui não. Aqui é outra coisa. Passa gente conhecida. Só que eu não posso andar, é muita casa do povo de lá mas eu não sei nem onde é que fica”, descreve.

“Tem gente que não gosta daqui, mas eu adoro aqui. Aqui é um canto maravilhoso. Aqui eu tô vendo gente, movimento, uns passam pra lá, outros pra lá. Aqui é outra vida do que lá na Barra Velha”, continua a idosa, que não deixa de fazer uma reclamação: a falta de portas em dois cômodos.

“Pelo amor de Deus, quando chove, a água entra na porta de lá e entra na sala. Eu nunca no mundo tinha visto uma casa feita desse jeito, ou achavam que não ia chover? Por certo, era, [pra] fazer umas casas com as portas abertas desse jeito.”

A Nova Barra de Santana abriga 503 moradores. Possui 176 casas permutadas, 41 casas populares para trabalhadores sem teto, e 33 lotes para construção de centro industrial e de serviços. Por lá se localizam uma escola, creche, posto de saúde, centro comercialização e quadra poliesportiva. Com seu planejamento e sua construção recentes, nem parece se tratar de uma área na zona rural, com casas novas e parecidas entre si e um comércio que começa a dar as caras.

Além da nova comunidade, três agrovilas foram construídas, em Jucurutu, Jardim de Piranhas e São Fernando. Na cidade principal da barragem — Jucurutu — a agrovila fica localizada na Fazenda Lagoinha. Possui uma área de 276,8 hectares, com 37 lotes individuais, além de lotes coletivos para cultura irrigáveis e de sequeiros. Ainda conta, segundo o Governo do Rio Grande do Norte, com unidade residencial unifamiliar com 58,8 m² de área construída, composta por terraço, sala, dois quartos, cozinha, banheiro e lavanderia externa.

Já a agrovila de Jardim de Piranhas ocupa 303 hectares na Fazenda Juazeiro, com lotes individuais para 54 famílias e lotes coletivos para produção agrícola, além de uma escola e um posto de saúde.

A última, de São Fernando, tem 130 hectares localizados na Fazenda Ramada. Os lotes individuais beneficiam 24 famílias e, assim como as demais, possui lotes coletivos para quem tira o sustento da terra.

Para Zilma Queiroz, representante do Movimento dos Atingidos pelas obras do Complexo Barragem de Oiticica, a mudança recente de moradia não foi fácil.

“Nós saímos da nossa velha Barra de Santana, que a gente nasceu e se criou lá. Nossos frutos, nossos entes queridos, nossa infância foi toda na velha Barra de Santana, pra tão de repente, há dois anos, eu vim morar em outro canto diferente. Diferente esse que não é igual a velha Barra de Santana”, diz.

“Nossa infância foi toda na velha Barra de Santana”, diz Zilma Queiroz, do movimento dos atingidos

Na questão específica da moradia, contudo, Queiroz diz que a casa “melhorou bastante”. Ela estava no palco junto com Lula e foi abraçada pelo presidente.

“Ali em cima do palanque eu fiquei muito emocionada de ver o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vim inaugurar essa tão sonhada barragem. Há muitos anos que a gente pelejava por isso”, conta. “Água é vida”, disse.

“A seca é um fenômeno natural. A fome é um fenômeno político”

José Procópio de Lucena é um dos que melhor conhecem a dor e o processo de mudanças vivenciados pelos atingidos pela construção da barragem. Atual diretor-presidente do Instituto de Gestão das Águas do Rio Grande do Norte, ele também foi, por anos, assessor do movimento dos atingidos, e reconhece:

“A história das barragens do Nordeste brasileiro foi de muito sofrimento. De expulsar as pessoas, de chegar com a obra física e expulsar, sem dialogar, sem respeitar”, aponta. Não foi o que aconteceu em Oiticica, em sua opinião.

Além dos moradores indenizados e que estão morando na Nova Barra ou nas agrovilas, Lucena, 41 famílias sem teto receberam casas do governo do estado, enquanto 33 ganharam terrenos para construir suas casas. Um exemplo, para Lucena, de justiça social.

“Aqui ninguém ficou abandonado, como alguns queriam fechar a barragem. Alguns vieram aqui, em governos passados, e qual era o lema? Fechar a barragem. Era a única coisa que sabiam dizer. Não tinha sensibilidade humana nem social. Não tinha amor ao próximo. Era um ódio, uma intolerância estabelecida contra o movimento, que o movimento estava atrapalhando a obra, que o movimento não fazia a obra andar. O movimento estava junto com a Igreja, junto com os sindicatos e junto com a comunidade defendendo dignidade humana, direitos humanos”, aponta. 

“Não valeria a pena essa barragem pronta e quatro mil pessoas expulsas sem terem para onde ir. Iam virar peixe, iam virar desempregados, sem terra, sem vida, sem sonho, sem perspectiva? Não. Então isso só aconteceu porque encontrou um movimento que lutou, encontrou um governo que dialogou, e a chegada do governo Fátima nos últimos seis anos fez essa obra andar sem nenhuma paralisação a mais. Antes ela parou 120 dias, que o governo passado não queria dialogar com o movimento, nem cumpria nenhum compromisso. O governo Fátima cumpriu todos os compromissos. Então o governo Fátima, o governo Dilma e o governo Lula ouviram esse movimento, ouviram essa comunidade e, portanto, fez mais do que a obra física”, defende.

Presidente do Igarn critica governo anterior; lera era “fechar a barragem”, diz | Foto: Vlademir Alexandre

Segundo Procópio Lucena, a barragem em Jucurutu é um exemplo prático de como o poder público deve se relacionar com a sociedade. Sem citar diretamente, mas se referindo ao governo Bolsonaro, afirma que a antiga gestão nunca dialogou com o movimento.

“Só chegava aqui para atacar esse movimento, chamava de ignorantes, de vagabundos, que estavam prejudicando a obra. Toda vida que vinham aqui, o grito é que tinham que terminar a obra física da barragem. ‘Se vire, essa história de ficar ouvindo movimento é perda de tempo’. Claro, numa ditadura ninguém escuta ninguém”, reflete. 

Com a mudança de ares em Brasília e o andamento das obras, diz ter visto nesse município do Seridó potiguar um dos melhores exemplos de indenização e apoio aos atingidos não só no Nordeste, mas na América Latina.

Se Oiticica já se desenha como uma mudança de paradigma para aquela região, o diretor-presidente do Igarn vê duas dimensões que se apresentam: a da seca e a da fome. A primeira, por ser no semiárido, deve continuar existindo; já a segunda é responsabilidade dos governos.

“A seca é um fenômeno natural. A fome é um fenômeno político. Não era para ninguém morrer por causa da seca, de fome e de sede. Agora, quando vem a seca, que as pessoas morrem de sede e fome, aí isso é uma decisão política. Não é um fenômeno natural. O fenômeno natural é a falta de chuva, é um fenômeno físico, que vai ser recorrente sempre no nosso semiárido, pela forma como o semiárido é, pelo seu contexto de ser semiárido. Porque é aqui no semiárido que a gente vive, é aqui que a gente resiste, é aqui que a gente tem cultura, tem história, e não é a seca que atrapalha o Nordeste. É a falta de política pública, é a falta de gestores”, reflete.

“Então você pode ter toda essa água agora canalizada, distribuída, como tem agora a adutora do Seridó. Vai chegar água em todas as cidades, mas temos que fazer com que essa água chegue para irrigação. Ela pode irrigar até 10 mil hectares. Isso gera 40 mil empregos. Ela pode abastecer até 2 milhões de pessoas, e deve fazer isso. Vai ter o projeto de adutoras do Seridó que vai ajudar a essa água correr para todo o Seridó”, comenta.

De acordo com Lucena, o seridoense vai saber conviver melhor com a seca, porque vai ter uma segurança hídrica de quase 100%, mas não é possível ter governança sobre as chuvas.

“Então você tem todo um planejamento para poder fazer com que essa natureza seja melhor cuidada, seja melhor amada. Não existe uma boa vida com a natureza destruída. E os fenômenos que estão acontecendo de temperaturas, de chuvas, com locais caindo muita chuva e outros não, tem a ver com o modelo de economia que a gente tem. É um modelo produtivista, é um modelo consumista, que só pensa em produzir e consumir, sem observar os limites da natureza”, aponta.

“Ninguém ficou abandonado”, diz presidente do Igarn que assessorou atingidos pela construção de Oiticica | Foto: Vlademir Alexandre

“Precisamos repensar o modelo de consumo. Nós vamos consumir com mais consciência. Precisamos produzir com mais consciência. A produção deve ser para garantir a dignidade da vida, não simplesmente para garantir o lucro. Comida não é mercadoria, comida é direito humano. Portanto, vamos cuidar da natureza, cuidar dos rios, proteger nossas nascentes, proteger nossos rios, proteger nossas águas e proteger nosso bioma caatinga, que a vida será melhor”, defende Procópio.

A administração dos conflitos e a resolução positiva também foram lembradas pela governadora Fátima Bezerra, que discursou na cerimônia de inauguração.

“Não é uma barragem de concreto apenas, de ferro. É uma barragem que tem o lado social, porque a construção dessa barragem já se apresenta para o Brasil e para o mundo como a mais bela experiência de gestão pública. Porque não foi só fazer a parede da barragem. Foi cuidar dos sonhos, da história, dos direitos, das agrovilas de Jardim de Piranhas, de Jucurutu, bem como de São Fernando”, disse.

A história de uma barragem

Por carregar tanta importância para a região e devido aos imbróglios para a sua construção, a barragem já virou até tema de variadas pesquisas científicas. No artigo “Direito ao acesso à água: conflitos socioambientais na Bacia Hidrográfica Piranhas-Açu”, a pesquisadora Juliana Fernandes Moreira, da UFPB, revelou que até o suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas foi motivo para atravancar a obra.

O projeto de Oiticica nasce na década de 1950, elaborado pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), num período de estiagem severa no Nordeste e de queda da produção agrícola. Naquele momento, Vargas nomeou o ex-governador da Paraíba, José Américo de Almeida — que esteve à frente do estado vizinho entre 1951 e 1956 — para assumir o Ministério da Viação e Obras Públicas. A missão era fazer uma intervenção na área de construção de obras hídricas no Nordeste, incluindo, então, Oiticica nos planos do Governo Federal, mas a ação não teve efeito imediato, em razão do suicídio de Vargas e da volta de José Américo para o Governo paraibano.

Com a ditadura e os governos militares, na década de 1970, surge a elaboração do Projeto Baixo Açu, como parte de um projeto do governo federal para incentivar a agroindústria nordestina. Mas a prioridade, contudo, foi dada à barragem Armando Ribeiro Gonçalves, no trecho do Rio Piranhas-Açu, logo onde estava sendo prevista a construção de Oiticica. A Armando Ribeiro Gonçalves é concluída em 1983, fazendo arquivar o projeto de edificação de Oiticica.

O projeto só saiu da gaveta décadas depois, quando Oiticica foi incluída no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

“O argumento utilizado para tanto foi a importância da promoção da segurança hídrica, uma vez que a água, enquanto recurso hídrico, na região da bacia hidrográfica do Rio Piranhas-Açu, é um bem ambiental escasso”, aponta Juliana Fernandes Moreira no trabalho.

Em 2007, no primeiro governo Lula, é iniciado o processo de licitação para contratar a empresa responsável por fazer a obra, mas o processo foi impugnado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que entendeu haver irregularidades no processo. A licitação só foi refeita pelo DNOCS em 2012, e a obra começou oficialmente em 26 de junho de 2013, durante o governo Dilma. Passou pelas gestões de Temer, Bolsonaro e encontrou Lula a partir de 2023. O reservatório recebeu investimento total de R$ 893 milhões, sendo R$ 161 milhões provenientes do Novo PAC.

O futuro que chegou

“Quando fui eleito presidente da República em 2003, eu tinha na cabeça que eu ia provar que a gente poderia fazer aquilo que Dom Pedro, imperador do Brasil, tentou fazer desde 1846 e não conseguiu fazer. Eu resolvi que era possível fazer que a gente trouxesse a água do Rio São Francisco para que a gente pudesse salvar do sofrimento 12 milhões de nordestinos que moram no semiárido desse país”, disse Lula, ao discursar para aquelas centenas de pessoas que acompanhavam seu discurso atentamente.

“Porque só não se preocupava com a seca, porque esse país nunca tinha eleito um presidente da república que tinha tomado água de um barreiro, que tinha tomado água de um açude, com cocô de animais, com caramujo. Porque somente quem vive nessa situação é que sabe a importância da água para o Nordeste brasileiro. E eu então assumi a responsabilidade de provar que era possível fazer”, disse o presidente, resgatando histórias do passado, como é praxe em seus discursos.

A lembrança da infância também foi feita por Fátima, ao lembrar de sua própria mãe e da mãe de Lula.

“Eu me lembro, presidente, de repente criança, adolescente, e dona Luzia, minha mãe, acordando a gente de madrugada, na época da seca braba, para caminhar, caminhar, atrás de uma cacimbinha para encontrar água limpa para beber. Mas eu lembro de cenas muito mais sofridas, que batem na alma, que é de repente uma mãe de família como ela, amorosa, e no tempo da estiagem dura, ela chegar na hora do almoço e eu querer comer mais, repetir o prato, e ela dizer para mim, ‘minha filha, infelizmente você não vai poder repetir o prato, porque se você repetir, seu irmão não vai ter o que comer’”, contou Fátima, antes de arrematar:

“Celebrar uma conquista deste tamanho é, sobretudo, fazer uma homenagem aos nossos antepassados, à dona Luzia, à dona Lindu, às Marias, às mães que sofreram tanto no passado com o flagelo da seca e homenagear o presente, as gerações presentes, dizendo que o futuro já começou.”

Fátima e Lula celebram inauguração de Oiticica | Foto: Vlademir Alexandre

Aos olhos do Seridó

Enquanto o evento acontecia em Nova Barra de Santana, não faltava de nada. Eram jovens, adultos, idosos, gente vendendo água, comida e uma infinidade de itens alusivos a Lula e ao PT, como bonés e bandeiras. Mas foi só Lula terminar sua fala que tudo se dispersou, e Barra de Santana começou a perder a inquietude que viveu naquele dia.

A uma certa distância dali, contudo, tinha gente que não queria se desgrudar de Oiticica. Eram visitantes que aproveitavam a ida ao município para poder conhecer, enfim, a obra sonhada há mais de 70 anos, como foi o caso de Francisca Oliveira, de 62 anos, que veio de Assú, no Oeste potiguar. Eleitora de Lula, ela foi ao município “para ver o nosso presidente, mas também principalmente para acompanhar essa obra maravilhosa, que vai dar uma condição econômica enorme para a região.”

A plataforma tem quase 5 quilômetros de concreto. Em mais de uma década de construção, 249 trabalhadores contribuíram para que tudo ficasse pronto. De acordo com o Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), a represa tem capacidade para abastecer até 2 milhões de pessoas.

“O agricultor, o pescador, está dando glória”, disse, emocionada, Francisca Oliveira. 

Francisca Oliveira saiu de Assú para Jucurutu para ver Lula e a inauguração de Oiticica | Foto: Vlademir Alexandre

Naquela hora, próximo das 16h, o sol ainda era forte. A tarde se encaminhava para seu fim e Jucurutu ainda não tinha visto a chuva descer pelo céu. A crença popular diz que, se chover no dia de São José — como era aquela quarta-feira — é sinal de um ano com boa colheita. Mas bastou a noite chegar que Jucurutu experimentou uma forte chuva, daquelas de dar esperança ao homem e à mulher do campo. Segundo dados da Emparn (Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte), Jucurutu teve, entre às 7h do dia 19 e do dia 20, uma precipitação de 73,2 mm, a maior registrada em todo o estado.

“Uma vez com a barragem cheia, com 90%, 100%, vai ser um espetáculo”, torcia Francisca.

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