A história de Oiticica contada pelas bordadeiras de Timbaúba dos Batistas

Quis o destino que dois sobreviventes da seca, uma paraibana radicada potiguar e um pernambucano que ainda menino fugiu da fome com a família com destino a São Paulo, em cima de um pau de arara, inaugurassem o segundo maior reservatório hídrico do Rio Grande do Norte, que levará água para matar a sede de mais de 300 mil moradores do Seridó.

A Barragem de Oiticica, erguida no município de Jucurutu, era sonhada há muitas décadas, começou a ser construída em 2013 e 12 anos depois foi finalmente entregue pela governadora Fátima Bezerra e pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva – os dois personagens unidos pelas caprichosas linhas que se entrelaçaram para construir o enredo dessa verdadeira epopeia nordestina.

Lula e Fátima na inauguração da Barragem de Oiticica. Foto: Vlademir Alexandre

Neste dia carregado de mensagens caras ao povo sertanejo, uma camisa de linho branco, feita pelas habilidosas mãos de um grupo mulheres artesãs seridoenses, adornou de simbolismos o que era para ser uma solenidade meramente protocolar.

Foi o próprio presidente Lula, ao discursar durante a inauguração, quem chamou a atenção para a camisa que usava na solenidade, feita pelas bordeiras de Timbaúba dos Batistas, as mesmas que assinaram o terno dourado usado pela primeira-dama, Janja da Silva, na posse do petista, no dia 1º de janeiro 2023.

Elementos usados nos bordados contam a história da Barragem de Oiticica. Foto: Vlademir Alexandre

Foram elas também que, com suas agulhas, linhas coloridas e máquinas de costura, bordaram as jaquetas usadas pela delegação brasileira nos Jogos Olímpicos de Paris 2024.

“De todas as pessoas que estão aqui no evento, eu sou a pessoa que tem a camisa mais bonita, feita pelas mulheres aqui do Rio Grande do Norte”, disse o presidente, citando em seguida, ao ser lembrado pela governadora Fátima Bezerra, as bordadeiras de Timbaúba dos Batistas.

Elementos que narram a história

Os bordados que decoraram a camisa usada pelo presidente narram, com beleza, delicadeza e poesia, a história da sonhada barragem através de elementos como a vegetação da caatinga, a parede de concreto do reservatório, o sangradouro por onde escoa a água, as agrovilas construídas para os moradores que foram deslocados para a construção da obra e a árvore da timbaúba, muito comum na região, conhecida pela força de que também são feitos os sertanejos.

“Essa camisa aqui conta a história dessa barragem. Essas mesmas mulheres que me deram essa camisa fizeram um vestido para a Janja tomar posse. Então eu quero agradecer às mulheres de Timbaúba dos Batistas”, repetiu Lula.

Alda Régia borda cada elemento na camisa com cuidado. Foto: Reprodução Instagram

A camisa foi bordada pela artesã Alda Regia, “irmã de Sueyla, filha do ex-prefeito Alceu e de Chicola, uma de nossas melhores bordadeiras”, como informava, em detalhas, a etiqueta que acompanhou o presente entregue a Lula para usar na inauguração da Barragem de Oiticica.

A peça foi costurada por Cesiana e sua mãe, Maria. Valdineide Dantas, conhecida como Patinha, foi a criadora do risco, inspirado na história da barragem. De acordo, ainda, com a etiqueta, a cambraia de puro linho foi doada por Edileuza, que ficou responsável também pelo gerenciamento do trabalho das bordadeiras.

Nessa distribuição de tarefas, a lavagem da camisa coube a Nega de Luís, enquanto a embalagem ficou a cargo de Salmira e Dileuza. O processo todo, que como se percebe foi bastante meticuloso, foi coordenado e acompanhado por Salmira.

A árvorea da timbaúba, bordada na cmaisa usada pelo presidente Lula. Foto: Cedida

Pronto, depois de um trabalho feito a várias mãos, agulhas e olhos atentos, a “camisa genuinamente timbaubense” estava finalizada, embalada e endereçada ao presidente Lula. “Feita com amor”, como descrito na etiqueta.

As bordadeiras, como não poderia deixar de ser, estavam presentes à inauguração da barragem em Jucurutu. Ao verem o presidente usando o produto do trabalho delas, encheram-se de satisfação por conseguirem traduzir através dessa arte tão tradicional da cultura popular nordestina o sonho que estava se materializando naquele momento histórico.

Tradição

A pequena Timbaúba dos Batistas, com pouco mais de 2.400 habitantes, distante cerca de 300 quilômetros de Natal, se orgulha da sua vocação para o bordado. A tradição vem de longe, remetendo à história da colonização portuguesa que se instalou na região do Seridó ainda no século XVIII.

Os principais elementos presentes nas peças produzidas em Timbaúba dos Batistas aludem aos bordados que, ainda hoje, são feitos na Ilha da Madeira: flores e arabescos desenhados em tons claros sobre tecidos de algodão e linho.

Tradição do bordado remete à história da colonização portuguesa que se instalou na região do Seridó ainda no século XVIII. Foto: Isabel Santos

Tudo começa na passagem do risco do papel para o tecido. Após formar a composição sobre papel-manteiga ou acetato, passa-se uma espécie de carretilha percorrendo todo o risco, fazendo pequenos furos por onde o azul da tinta imprimirá o desenho sobre o tecido.

Os contornos servem de guias para o caminho feito pela agulha e linha. O risco pode ser coberto à mão ou à máquina. O método mais utilizado em Timbaúba dos Batistas é com a máquina de pedal.

Os modelos antigos, com mais de quatro décadas, passados de geração em geração, são manejados com muita habilidade pelas bordadeiras. A destreza técnica, o cuidado com cada detalhe e o amor das artesãs em manter viva a tradição secular do bordado ajudam a mostrar o outro lado do semiárido, para além do conhecido enredo de dureza, dificuldades e sofrimentos causados pela estiagem.

Saiba Mais: Quem são as bordadeiras de Timbaúba que chegaram ao Palácio do Planalto

Das avós, mães e tias para as meninas

A arte é repassada pelas avós, mães e tias às meninas, que começam a dar os primeiros pontos aos dez anos de idade. Com toda essa tradição, a cidade reivindica o título de “Capital do Bordado do Brasil”.

Desde 1984, as artesãs se organizam na Associação das Bordadeiras de Timbaúba. Além disso, algumas delas participam da Cooperativa das Mãos Artesanais de Timbaúba dos Batistas, responsável pela administração da “Casa das Bordadeiras”, onde acontecem cursos, eventos e venda dos produtos.

A força da vocação fez do bordado a principal atividade econômica daquela pequena comunidade encravada nos confins do Seridó.

Depois de subirem a rampa do Palácio do Planalto com a primeira-dama Janja da Silva, vestirem os sonhos olímpicos dos atletas do Brasil em Paris e, agora, imortalizarem na camisa usada pelo presidente Lula a história da Barragem de Oiticica, é provável que os olhos do mundo se voltem novamente para o trabalho dessas mulheres que desafiaram a sina do destino para desenhar com cada bordado uma história de autonomia, independência e resistência.

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