RN tem taxa de erosão marinha superior à média global, diz pesquisador

Enquanto a taxa média de erosão marinha no mundo é de meio metro por ano, no Rio Grande do Norte alguns setores do território, principalmente aqueles ocupados por atividades urbanas, como cidades ou empreendimentos, possuem taxa superior a um metro/ 1,5 metro por ano.

Em alguns setores do litoral setentrional, que são importantes no aspecto turístico, já percebemos taxas bem superiores a isso, chegando a taxas de quatro a cinco metros por ano. Isso é um grande problema para o litoral, tanto do Nordeste, como do Brasil, dada as características onde os estuários e rios que chegam até a costa são rios que foram continuamente barrados no processo histórico de estabelecer reservatórios de água no interior do continente para aliviar a crise hídrica”, contextualiza Venerando Amaro, professor de Engenharia Civil e Ambiental da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e coordenador do Laboratório de Geotecnologias Aplicadas Modelagem Costeira e Oceânica (GNOMO).

Com os rios barrados, menos areia chega à linha de costa e, com isso, a reposição dos sedimentos nas praias foi sendo reduzida ao longo dos anos.

Hoje temos uma participação das areias vindas das falésias e de áreas com pouca ou nenhuma habitação e onde nossas praias ainda estão ligadas, dentro de um ecossistema equilibrado, com as dunas que também dependem da praia para sua existência. A partir do momento que ocupamos as praias e interrompemos a alimentação das dunas, nós também estamos matando essas dunas”, explica.

Os dados sobre as taxas de erosão no Rio Grande do Norte têm sido colhidos ao longo de cerca de 30 anos. Nesse período, os pesquisadores observaram que a recuperação dessas praias tem sido reduzida.

Esse é um alerta que temos feito. Há vários trabalhos publicados mostrando que isso se repete em todos os segmentos medidos. É muito sério porque nosso litoral é de alta sensibilidade a essas alterações. As cidades que são litorâneas se aproximaram demais e fizeram construções muito próximas da linha de costa”, relata Amaro.

Desde a década de 1990, as taxas de erosão no RN têm ficado cada vez mais aceleradas.

Isso se associa, também, às questões climáticas que nós percebemos terem se intensificado. Muitas vezes observamos as questões climáticas pela perspectiva da atmosfera, pela temperatura do ar, mas o que temos alertado é que, do mesmo modo que a temperatura do ar está sofrendo aquecimento, a temperatura do oceano também sofre e, praticamente, numa proporção similar. Isso faz com que a energia trocada entre o oceano e a atmosfera também se intensifique e aí chegam grandes energias através das ondas, que tem um poder de destruição das estruturas muito elevado e já encontra uma praia em que o volume de areia que deveria servir como amortecedor, defesa para a infraestrutura instalada na costa, já está deficiente”, acrescenta.

Solução conjunta

Diante do cenário de avanço do mar, é comum que cada proprietário de imóvel ou empreendimento, como pousadas e resorts, busquem sua própria solução para manter sua área protegida. O problema é que essas iniciativas isoladas têm, na verdade, ajudado a acelerar o processo de erosão das áreas vizinhas.

O fato de você colocar um elemento rígido numa praia para enfrentamento do oceano, como um enrocamento ou muro de contenção, intensifica a velocidade da taxa de erosão por uma questão física, é distribuição de energia na análise hidrodinâmica. O fato de permitir que cada dono de imóvel faça sua própria defesa costeira é uma das piores formas de enfrentar a questão. O que precisamos ter é um consórcio. Isso tem que ser pensado de maneira a que vários atores sejam responsáveis por esse problema. Os gestores, proprietários e pessoas envolvidas nos estudos desse tema precisam sentar e buscar uma solução coletiva porque se cada um toma sua própria providência, eles tendem a colocar estrutura rígida e isso transfere para o vizinho imediato todo o processo de erosão. Dessa forma, vamos perder o que chamamos de praia, muitas têm sido usadas apenas na maré baixa porque a maré alta já não permite mais o acesso à faixa de areia, nem mesmo a molhada. A solução existe, mas precisa ser tomada por um consórcio de atores que pense a zona costeira de maneira mais ampla, mais holística”, alerta.

Outra preocupação é a prática de jogar a água das chuvas na praia, contaminando a areia e acelerando a erosão.

“O excedente da chuva, por exemplo, é canalizado e jogado em direção á praia e muitas dessas cidades não têm um sistema de esgotamento sanitário apropriado, então todo esse volume de água, inclusive contaminada, acaba sendo lançado diretamente na praia. Uma das preocupações que deveríamos ter junto aos gestores era de não fazermos mais esse tipo de prática, temos que reter o máximo possível as águas no continente, sobretudo diante de um quadro de mudança climática quando temos chuvas mais intensas em ambiente já impermeabilizado”, aconselha Amaro.

Cuidado com os negacionismos

O pesquisador explica que há soluções pouco exploradas para manter a água das chuvas dentro do continente, evitando que ela seja jogada na praia.

Toda essa água que pode chegar carreada em direção à praia poderia ser reconduzida para dentro do aquífero de maneira apropriada através de obras de engenharia baseadas na natureza ou obras de engenharia sustentável, com menos impermeabilização e mais verde, podendo servir como elementos paisagísticos agradáveis, recreacionais...”, sugere o pesquisador.

“Precisamos ficar alertas porque ainda existe, dentro da comunidade que toma decisões, um negacionismo imenso. As pessoas não acreditam que tudo isso pode acontecer num prazo curto e estamos vivendo esse momento e vendo que ele está cada vez amis alterado, só um exemplo é que a cada ano estamos rompendo os limites recordes das temperaturas do ar. O mesmo está ocorrendo com as temperaturas dos oceanos e à medida que isso acontece tenho ondas e correntes mais intensas, e ainda um território, que é a orla marítima, já reduzida na sua capacidade de defesa e a principal é a praia, a área com areia”, critica.

Ocupação desordenada

Cidades litorâneas sem planejamento e que se espalharam muito perto da linha de costa também contribuíram para o processo de erosão.

As cidades costeiras nunca se preocuparam com esse aspecto, achando que as praias ficariam ali para sempre e tomaram esses espaços como se estivessem dentro do continente. Impermeabilizaram o solo, pouca vegetação, colocaram suas casas muito próximas das praias, soma-se a isso o processo de intensificação das energias oceânicas de correntes das alterações climáticas. Hoje enfrentamos esse inimigo, sabemos que as mudanças climáticas tem um processo de aceleração relacionado diretamente à antropogênese, somos nós os responsáveis pelo aquecimento global”, assevera o professor da UFRN.

Ondas mais fortes

O pesquisador explica, ainda, que já há dados que demonstram que o processo de mudanças climáticas vem sendo acelerado desde a Revolução Industrial.

Acontece que esse aumento é muito mais acelerado nos últimos 30/40 anos do que foi nos anos anteriores e, aparentemente, os últimos anos têm sido ainda mais acelerados do que a média daquilo que acontecia no passado. Hoje, já temos dados suficientes para dizer que as ondas estão ficando cada vez mais intensas, isso já vem sendo observado nos últimos 50 anos e ela é uma força motriz para as correntes, sendo que tudo isso está relacionado”.

Cada caso é um caso

Apesar dos dados globais que traçam o cenário de temperaturas mais altas, com avanço do nível do mar e ondas mais fortes, Venerando demonstra que é preciso avaliar os dados em uma escala local porque cada praia tem suas características próprias.

Por mais que a gente observe isso de maneira geral, fale em médias globais, é importante que a gente saiba que é preciso observar isso numa escala mais local porque há outros fatores que interagem com tudo isso. Num mesmo litoral, temos setores com mais tendência erosiva, outros um pouco menos e alguns que têm recebido um pouco mais de areia, é o que chamamos de equilíbrio dinâmico. O processo de erosão está intensificado, vai afetar todas as praias, mas em alguns setores isso é mais intenso, sobretudo nas áreas urbanas e com pouca visão de sustentabilidade”, pondera.

Unindo pesquisa e uso de Inteligência Artificial, os pesquisadores já conseguem fazer uma projeção de cenários futuros para o litoral do RN.

Em alguns setores o quando é bem negativo. Há cidades que vão perder parte do seu território fronteiriço à linha de praia num prazo de 10 a 20 anos. São várias dessas pequenas cidades que têm uma baixa capacidade de enfrentamento a esses problemas, não têm uma prefeitura de capital para buscar recursos em outras instâncias. Já há muitas comunidades vivendo esses impactos, que vão se acelerar. Chamo atenção para as comunidades que dependem desses espaços, como os pescadores e marisqueiras. Todas essas pessoas que vivem do mar e que podem perder, inclusive, parte de seu rendimento. Chamo atenção, também, para as comunidades indígenas costeiras que, além de perder seu território, estão vendo a paisagem de seu território ser alterada”, lamenta Amaro.

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