Transporte público deve ser prioridade no trânsito, defende presidente da Fetronor

O presidente da Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Nordeste (Fetronor), Eudo Laranjeiras, argumenta que o transporte público deve ser considerado prioridade no trânsito. Em entrevista ao AGORA RN, ele explica que um dos grandes desafios da federação gira em torno de convencer as autoridades de que o transporte público deve ser priorizado para, dessa forma, atender a população com qualidade.

Laranjeiras afirmou que as linhas de ônibus não têm uma faixa exclusiva, como o veículo leve sobre trilhos e os trens, e que este é um dos aspectos que pode dificultar a criação da visão do transporte público como prioritário. O presidente da Fetronor ainda citou, entre outros desafios, a queda de passageiros na última década – agravada pela pandemia, e-commerces, home office e aplicativos.

Eudo Laranjeiras disse ainda que os ônibus elétricos não são viáveis no RN atualmente devido à falta de infraestrutura energética. O presidente da Fetronor revelou que um único veículo elétrico aumentou em 60% o consumo de energia das empresas e alertou que a instalação de 40 unidades em Parnamirim poderia causar apagões no bairro pela sobrecarga na rede. “Sem infraestrutura adequada, não funciona”, declarou.

AGORA RN – Poderia fazer uma avaliação sobre o sistema de transporte atualmente em Natal?
Eudo Laranjeiras – O sistema de transporte do Natal, a princípio, está bem. Já esteve pior, tem dado uma melhorada realmente. A pandemia deu uma atrapalhada geral no serviço. Nós, mesmo sem transportar passageiros, continuamos rodando, porque o serviço existia, a gente continuou. A gente não pôde parar, mas ficamos com um prejuízo gigantesco e a gente vem se recuperando. Também tem um problema que vem acontecendo que é a queda de passageiros ao longo da última década, agravada pela pandemia. Houve vários tipos de e-commerce que cresceram assustadoramente. As pessoas hoje não vão à loja comprar por exemplo, compram no e-commerce, também teve o crescimento do trabalho em casa, tem o crescimento do transporte por aplicativo, que também está tirando passageiros [dos ônibus].

AGORA RN – Esse seria um grande desafio para o transporte público?
Eudo Laranjeiras – A gente vem num declínio de passageiros. O grande desafio nosso é fazer com que as autoridades entendam da priorização do transporte público. O transporte público precisa ser priorizado para que ele tenha um bom atendimento ao cliente. Eu avalio [o transporte de Natal] hoje como bom, mas tendo problemas. O que nós precisamos que as pessoas entendam é que se ocorre o atraso, não é nosso, é do próprio trânsito. Não temos vias exclusivas de ônibus, como o trem tem. Essa priorização do transporte quem deve dar é o governo. Quem dá são as autoridades estaduais, municipais e os órgãos gestores, na realidade. Nossa obrigação é pegar o ônibus e colocar à disposição da população, mas a prefeitura diz qual é o itinerário, diz a quantidade de ônibus, diz o seu quadro de horário. Nós apenas fazemos o que a Prefeitura e o estado determinam.

AGORA RN – Como avalia a relevância do subsídio do transporte público de Natal?
Eudo Laranjeiras – Bem, o mundo inteiro subsidia tarifa de ônibus porque o transporte é caro. Você não tem um ônibus bonito, com ar-condicionado, todo limpo, mas que só quem paga a conta no Brasil é o passageiro, ele não aguenta pagar mais. Mesmo tendo o vale-transporte, que o trabalhador está protegido, a quantidade de gratuidades que existe vai para conta de quem paga a tarifa, essa é uma injustiça grande cometida com a população. Por isso que o ônibus, por estar à disposição da população, ele precisa ser subsidiado, mas não a empresa. Quem é subsidiado é o passageiro, porque ao invés dele estar pagando R$10, ele está pagando R$5. As pessoas pagam uma taxa, não o serviço inteiro. Em muitas cidades do Brasil tem esse tipo de subsídio que, às vezes, é distorcido dizendo que o subsídio é para a empresa. Não, o subsídio é para o usuário. Essa é a história do subsídio para o transporte público que a gente defende, há necessidade que aconteça mesmo, em proteção ao cliente, ao usuário, àquele que tem mais dificuldade e que anda de ônibus. Tudo isso se resume em priorização. É preciso priorizar o transporte. É preciso fazer com que o transporte seja encarado por toda a sociedade, pelos gestores, como uma prioridade. O ônibus ajuda a combater a poluição, por que? O ônibus tira 30 carros da rua, 35 carros da rua. Isso precisa ser analisado friamente, não com demagogia, nem com o individual. Uma grande dificuldade nossa como entidade é convencer a população e as autoridades que nós somos corresponsáveis, não somos os únicos responsáveis pelo tipo de serviço que é oferecido à população

AGORA RN – O ônibus também contribui sendo mais sustentável no trânsito?
Eudo Laranjeiras – Se o transporte público é bom, você deixa o carro em casa. Se ele é excelente, não tenho a menor dúvida. Se eu chego na parada e sei que o ônibus chega em cinco minutos, por que eu vou pegar meu carro? Mas não temos isso, porque nós não temos prioridade no trânsito.
Na medida que você tira o carro da rua, você diminui a poluição e você melhora o engarrafamento. Então, já dá uma qualidade de vida para todos, para quem tem automóvel e para quem está dentro do ônibus. Aqui na Federação, temos um trabalho que chama-se Despoluir. Esse nosso programa é reconhecido pela ONU. É o maior programa de combate à poluição do Brasil. Eu visito diariamente os carros com um técnico. Eu vou na empresa, analiso se o carro está bom, se o carro está ruim. Se está ruim, tira de circulação, deixa na garagem e conserta. O ônibus hoje é o menor poluidor que tem na cidade. A sustentabilidade passa por renovação de frota, pela qualidade dos motores, que hoje é muito melhor. O nosso combustível, com todas as dificuldades que nós temos, ainda tem a qualidade do biodiesel. A gente polui menos, isso é bom para a cidade.

AGORA RN – Como avalia a implementação de ônibus elétricos na frota em Natal e no RN?
Eudo Laranjeiras – Não acho que o ônibus elétrico seja a solução, porque nós não temos essa questão de infraestrutura. Lá nas empresas, esse ônibus aumentou a nossa conta em 60%, um ônibus só. Conversando com o técnico, percebemos que se colocarmos 40 ônibus na garagem hoje em Parnamirim, um bairro todo fica sem luz porque puxa tanta energia que fica sem luz. Sem infraestrutura adequada, não funciona. Então eu acho que o ônibus elétrico não é a solução. O Rio Grande do Norte não tem essa estrutura.

AGORA RN – A Fetronor deve realizar um seminário no dia 11 de abril. Detalhe.
Eudo Laranjeiras – Nós estamos comemorando os 50 anos da Federação. A Fetronor, que é uma federação que nasceu gigante, completa 50 anos no dia 12, mas nós estamos fazendo o seminário dia 11. E estamos lançando um livro de comemoração com nossa história. A gente fez um apanhado dessa longa existência. Nós temos uma pessoa da Confederação Nacional do Transporte que estou até antecipando, ele vai falar da questão do biodiesel, vai falar da questão do carro elétrico, do Despoluir que a gente faz para melhorar a sustentabilidade. Teremos o Francisco Cristóvão, que é presidente da Associação Nacional de Transportes Urbanos. Ele é especialista em urbano e metropolitano, vai falar do futuro da mobilidade. Nós estamos trabalhando, batalhando dentro do Congresso para criar o SUM, que seria o Sistema Único de Mobilidade. O Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, vai falar da situação do país hoje, como é que está, qual a perspectiva de futuro, vai falar das perspectivas do Brasil nessa situação mundial e no local. A princípio nós convidamos todos os técnicos das empresas, das prefeituras, não só daqui, como de Pernambuco, da Paraíba, dos municípios por perto. Chamamos as autoridades, o Ministério Público, mas se chegar lá e tiver oportunidade de presenciar, o público pode ir.

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