Areia nova na cidade velha

Por Túlio Madson de Oliveira Galvão 

Cheguei em Ponta Negra como quem se percebe estrangeiro em sua terra natal. Havia máquinas, tratores, tubulações, não era bem um canteiro de obras que esperava. O céu resplandecia um azul Giotto, mas a areia era de um cinza lunar, laminada com fósseis de corais. Não era uma areia gentil aos pés. Sabe aquela areia faforinha, bem peneirada e triturada por milhões de anos sob as ondas? Daquelas que quando a água molha se torna durinha pra andar, quando seca agradável para sentar e deitar e quando debaixo d’água se torna aderente aos pés. Uma areia que não é tão branca, meio cor de maria farinha. Boa pra moldar em castelos, muros, lagos. Uma areia pelúcia, farinha de trigo que enche as dunas. A areia do morro do careca.

Sabe, se olhar bem, ao lado esquerdo do careca tem um morro calvo, um pouco mais alto, ali é lugar ideal para um pôr do sol lisérgico, litúrgico, com tanta máquina em torno do morro, vai ser difícil acessar a trilha. Cheguei na hora em que vomitavam areia lunar na praia. Haviam tratores no pé do morro, como quem dando socorro. O que dizem é que ia virar falésia, pensei que “falésia careca” não soaria bem, pensei também se todo morro tem falésia embaixo, se a falésia não é o esqueleto de todo morro alto. Fiquei nessa.

Se caminhar está tão difícil, me entreguei ao mar. Fiquei por ali, com minhas sapatilhas, por horas, aprendendo o ritmo das novas ondas, após o engordamento da orla. O ponto certo está entre a arrebentação e o impulso de se deixar levar. Nem sempre é possível ficar de pé. Mas também não é necessário flutuar o tempo inteiro. Há um ponto de equilíbrio — e é no intervalo entre as ondas que ele se mostra.

Fiquei ali, prevenindo os turistas, alertando das quedas, dos rolamentos. Entravam sorrindo, logo as navalhas de corais cobravam seu preço, entravam saltitando, o semblante logo mudava após a primeira onda, de curiosidade para medo, óculos caíam, senhoras rolavam em caldos na areia triturante. Presenciei muitas luxações, ao fim, eu era sempre o único nesse ponto da praia, pois estava de sapatilhas, minha presença acabava atraindo turistas que buscavam um espaço vago, sem saberem do motivo pelo qual essa área estava vaga, era um trecho recém aterrado e a areia ainda estava se acomodando, as conchas maiores não tinham ainda sido cobertas por pedaços menores.

Ao final do dia, quando o sol declinava sobre as dunas, entendi que essa dualidade entre a beleza ofertada aos turistas e as cicatrizes deixadas nos espaços urbanos era um retrato fiel do processo histórico da cidade. Essa Natal vitrine, espetáculo para visitantes, de alguma forma se distanciou dos natalenses. Recordei que para além das belezas naturais e das comodidades comerciais, existe uma Natal que precisa ser reinventada em uma identidade natalense para além do turismo, da Cidade do Sol, uma Natal menos natureza, mais cultura. Uma cidade que não esteja apenas voltada para fora, mas que inclua os seus. Natal não consagra nem desconsagra ninguém, é o que dizem. Isso porque Natal tem sido indiferente com sua cultura, pois não capitaliza tanto quanto sua natureza. Se há a maldição do petróleo em economias dependentes dessa commodite, também há uma maldição da beleza em certos lugares turísticos, maldição que recai sobre seus cidadãos.

Ponta Negra, suas dunas desertas, suas trilhas secretas, seus pescadores e malucos beleza, dos rolés, do vinho na praia, do paraíso, das rodas de violão, das primeiras descobertas. Não sei muito o que resta. Mas deve ser só nostalgia, ou ressentimento de quem se autoexilou da sua terra.

Mas eu preciso ser gentil com Natal, para também ser gentil comigo.

Mas não consigo.

Minha cidade é fortaleza de si mesma.

Sou fortaleza dela.

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