O ôxe e os seus pariceiros: entenda como surgiu o ‘idioma’ soteropolitano

Nenhum malandro atinge a profundidade (lá ele) do soteropolitano. Aos que nascem em Salvador, duas são suas predestinações: seguir ‘à vera’ os ensinamentos dos ancestrais, disseminando a palavra do “oxente” pelo resto do mundo ou simplesmente esquecer que uma vez já pensou em não nascer em Salvador.Uma coisa é certa: não há aquele que não queira sentir, ao menos uma vez, a ‘cidade multilíngue’, que na data de hoje assopra mais velinhas e comemora o quadringentésimo septuagésimo sexto aniversário, ou melhor, os 476 anos.

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Aos que não tiram o ‘oxe’ da boca (lá ele de novo) e os que ‘num come reggae de ninguém’, a ideia é uma só: o texto é a oportunidade de entender o porquê o soteropolitano já nasce com a swingueira no falar – uma coisa que modéstia às favas só brilha na boca do baiano.

O swing no falar só brilha na boca do baiano

|  Foto: Rafael Martins/Ag. A TARDE

Estudiosos baianos explicam que as famosas gírias baianas, e mais especificamente, soteropolitanas, são frutos de heranças das línguas de inúmeros países: afinal, 476 anos não são 476 dias, né? As influências das línguas indígenas, a forçosa imposição da linguagem dos portugueses e a ascendência africana deram origem ao que nos permite hoje xingar com elegância qualquer ‘pombo sujo’ que vier com ‘baratino’ para o nosso lado.Cidade multilíngueHá quem saiba de cor a história de Salvador (o título de ser a primeira capital do Brasil não é para qualquer um). Para os que não conheçam, a cidade, que já era habitada por povos originários, de diversas etnias, era rica com sua própria língua, suas próprias estruturas gramaticais e lexicais até que a invasão dos portugueses tivesse dado início ao que o estudioso em linguística Guilherme de Araújo compreende miscelânea de cultura.Ele explica que a chegada dos portugueses na terra, junto com o processo de colonização e catequização contribuíram para a difusão de uma ‘língua-geral’, ou para ‘pegar a visão’, a língua Tupi, que foi idealizada pelo Padre Anchieta. A criação de uma nova língua foi a forma encontrada de preservar a linguagem dos indígenas, que passaria a ser usada pelos nascidos de portugueses e indígenas.“Nos primeiros anos de colonização, a estrutura populacional do Brasil era minoritariamente branca, dos colonos europeus. Então, a estrutura de língua quando os portugueses chegam é dada como estrutura das línguas indígenas. Anchieta conta que a língua portuguesa, ela não era a língua das famílias, mas era a aprendida pelos tamoios, ou seja, pelas pessoas que aqui nasciam filhos de colonos portugueses com indígenas, apenas quando eles iam para as escolas. Então já vem nascendo algo próprio daqui”, explica o mestrando em Línguas e Cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Guilherme de Araújo, linguista e mestrando em Línguas e Cultura

|  Foto: Arquivo pessoal

Ainda durante o período colonial, o país recebeu cerca de 5 milhões de negros escravizados, que antes de serem trazidos ao Brasil, também já tinham formado a sua própria comunicação. Os escravizados que chegaram ao Brasil dominavam as línguas Banto – uma família linguística nígero-congolesa. Mas para evitar que pudessem se rebelar ou criar um motim contra a classe dominante na época, foram forçados a aprender mais uma língua, que era o português.

Essas noções de ser falante de mais de uma língua é uma constituição histórica, e Salvador é uma cidade multilingue, em que há uma efervescência linguística acontecendo e essa efervescência linguística, resulta em algo próprio, em algo que é específico de Salvador

Guilherme de Araújo, mestrando em Línguas e Cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Todo esse arrodeio para dizer: o português soteropolitano recebeu toda a influência dos povos indígenas, dos portugueses e também dos povos africanos que chegaram. “É resultado de muita resistência e de enfrentamento às políticas coloniais’’, finaliza ele. É isso que dá todo aquele toque ‘massa’ do sotaque soteropolitano e também do seu dialeto, que deu origem às gírias.Gírias soteropolitanasTudo que é falado sofre um processo chamado de variação linguística – uma diversidade na forma de falar uma língua, que pode mudar de acordo com vários fatores. Com o dialeto soteropolitano não é diferente. São essas misturas que formam o que é conhecido como gíria. Mas claro, só é percebido quando falamos.Guilherme de Araújo explica que entre esses fatores estão importantes processos sociais, que são a variação regional, variação de gênero, variação de escolarização e até mesmo variação geográfica entre os bairros. Isso acontece porque essa mudança varia de acordo com a expressão do falante.“Nós transitamos em diversos espaços tanto geográficos quanto espaços sociais. Então pensar no dialeto de Salvador é também pensar não apenas num dialeto unificado dentro da cidade, mas é pensar que na cidade existem de outras variações”, inicia o pesquisador.

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Essa variação acontece até mesmo dentro da própria região, e até mesmo em cada bairro. Quem é fãzaço vai lembrar da banda Baianasystem questionando: “Cidade Alta ou Cidade Baixa: diga que cidade em que você se encaixa”. Pois é, também é essa uma forma de entender essa diferença regional dentro de um próprio território.“Existem variações geográficas, é possível pensar, por exemplo, que há expressões num subúrbio que talvez não sejam compreendidas na Cidade Alta e ciclos de de pessoas mais escolarizadas, por exemplo. Então, o falante ele tá modificando a sua língua o tempo todo”, continua ele.Muitas pessoas podem imaginar que o ‘oxe’ é uma variação do ‘oxente’, expressão baiana para demonstrar surpresa ou indignação, mas não seria fácil imaginar que a sua origem seria variação de ‘Ô gente’ – uma expressão do português arcaico que foi resgatada para tempos atuais através de uma variação linguística.

O soteropolitano também tem a mania de não usar o gerúndio como uma ordem universal

|  Foto: Uelder Galter | Ag. A TARDE

Num é errado falar assimAlém disso, o soteropolitano tem a mania de não utilizar o gerúndio como uma ordem universal. Se você tiver ‘na pala’, ou seja, arrumado, em Salvador você não está com um look ‘batendo’, mas ‘bateno’ – uma forma de dizer que você está deslumbrante. Isso, por mais louco que pareça ser, não é algo que surge ‘na telha’ do soteropolitano, mas uma herança africana e indígena explicada pela dificuldade desses povos em fazer um som interdental – um espaço que existe entre os dentes. Linguísticas defendem a língua do jeito que ela é, considerando as variações que ela sofre e por quem ela é falada. Afinal, ‘não é errado falar assim’“Assim como o negro e o indígena vão sofrer preconceito por serem considerados periféricos e distantes do que o padrão nos impõe, isso acontece também, com a fala porque se a pessoa não consegue se comunicar de acordo com o português que é ensinado na escola, o português tradicional, essa pessoa é vista como ignorante, que não sabe falar português. Mas o que não sabemos é que nós brasileiros, sendo ou não escolarizados, sabemos fluentemente o português”, explica o professor Luís Alberto, o especialista ‘mais fraco’ da Linguística.Ainda conforme ele, a variação linguística foi influenciada pelo tempo e pelas mudanças com as formas de falar. Palavras e frases que eram dita no século antigo, deram espaço para o encurtamento e na ressignificação das palavras:

Um exemplo disso é o famoso ‘Vossa Mercê’. Com o tempo virou ‘Você’, mas o baiano só fala ‘C’. Também temos o famoso ‘Vamos sair em boa hora?’. Nós tiramos o ‘sair em boa hora’, ficou ‘Vamos embora’ e daí foi ladeira abaixo: hoje, se não falamos vumbora, fizemos só o ‘bó’

Luís Alberto

Soteropolitano fala cantandoMas como tudo que o baiano toca vira ouro, também reluz como o soteropolitano fala. Luís Alberto explica aquele velho ditado que o soteropolitano fala cantando. Essa também é uma herança africana do banto, e para Luís Alberto, duas características fortalecem esse legado.“São estabelecidos quatro níveis de comunicação. O primeiro nível é muito fonético, que trata do som, e o soteropolitano é muito fonético porque você pergunta para ele alguma coisa do tipo: Gostou da festa? Ele fala: “Aham”. E isso é um som. E esse: “Aham” está concordando com você. Aí você fala: “Tinha muita gente bonita”? Ele fala: “Hum, hum”. “Hum, hum” é negação. Então, tudo isso aí é uma marca do baiano que gosta de se comunicar através do som. É uma coisa mágica que ele gosta de comunicar fazendo vogais”, explica o especialista em Linguística.

Luís Alberto, especialista em Linguística

|  Foto: Arquivo pessoal

A outra parte está ligada a uma coisa que chamamos de muxoxo – estalo que se dá com a língua e os lábios, mas que também é um som que fazemos para demonstrar birra, descontentamento e afins. Sua origem é controversa, mas tem uma forte presença no dialeto soteropolitano.“O muxoxo é um som que a gente faz dá basicamente glotal [acontece quando o som de uma consoante, como o “T” em algumas palavras, é substituído por um som oclusivo, criado pela glote]. Está presente, por exemplo, quando a sua mãe fala: “Pode dar seu muxoxo”, quando emitimos um som que demonstra insatisfação. Você nunca assistiu, em nenhum filme, o Capitão América dando muxoxo para o Homem de Ferro. Esse muxoxo é daqui, é nosso. Há vários estudos, cerca de oito estudos para muxoxo, que é altamente regional e que inexplicavelmente conseguiu misturar as três formas de falar da época”, explica ele.RessignificandoOs especialistas apontam ainda para um movimento muito característico do soteropolitano, que é o de dar um novo significado às palavras que sofrem a variação linguística. Por exemplo, o ‘oxe’, que dependendo da entonação pode significar espanto, surpresa ou admiração.Outro palavreado que relembra esse ressignificado é a palavra barril. A expressão surgiu, na década de 50, dos barris de água que os trabalhadores carregavam em Salvador. Por conta do peso do barril, as pessoas diziam que era difícil carregar o objeto. Hoje, a palavra ganhou novos significados, e pode tanto simbolizar algo perigoso ou algum problema ou também que algo está legal. Tudo claro, deve ser analisado no contexto.

Então, essa é a prova de que a língua está aí e de que a variação está acontecendo e os falantes estão criando, inventando aí acontecendo e de que as variações estão acontecendo e de que os falantes estão criando, estão inventando no seu uso da língua

Luís Alberto, formado em Letras Vernáculas na UFBA

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