Falta de ética

– Mas você não tá vendo que isso só prejudica os outros homens???– Como assim?– Você faz tudo o que sua mulher pede.– Mas tem de ser assim.– Pior – você faz até o que ela não pede, antecipando o seu desejo.– Mas, e daí?– E daí é que todas as mulheres do grupo te apontam como exemplo de marido, e como fica a nossa situação? Nós sabemos que sua atitude não é usual nessa nossa classe humana, hétero, tanto faz de anel no dedo, sem anelo, de papel passado e sem papel. Você tem uma atitude fora da curva. Pense em nosotros!–Eu acho que tenho de pensar em minha mulher, agradá-la no que for possível!– Meu caro, você faz até o impossível! Pense nos amigos!– Eu penso, só não sabia que estava prejudicando a relação de vocês com suas respectivas esposas.– Pois está! Principalmente às quartas à noite quando você liga para dizer que não vai para um baba por que sua mulher não quer ver o capítulo da novela sozinha. Qual marido deixa de ir a uma pelada para ficar vendo capítulo de novela?– Eu!– Você não vale, estou a dizer.– Acredite, eu gosto.– E quando sua pessoa não vai para o póquer da sexta para levar a mulher ao shopping? Shopping e sábado, e olhe lá.– Ela gosta da minha presença.– Tá difícil me fazer entender e eu só estou tentando lhe passar o que o grupo anda comentando: que você é uma pessoa nefasta e que vai destruir o casamento de todo mundo.– Não tenho culpa, é, meu jeito.– Você sempre foi assim e sempre nos criou problemas. Lembra quando a gente pegava as meninas na faculdade e levava para motel? Lembra? O que acontecia? Você, indo contra as leis da natureza acabava de se relacionar, pagava a conta e levava a garota para jantar e ficar batendo papo quase até o dia amanhecer.– Eu gosto de bater papo!– Mas cara, você parece que nunca ouviu falar em endorfina ou em prolactina. O homem quando acaba de fazer sexo tem um relaxamento profundo. Fica querendo um descanso. A mulher, não, ela fica mais acesa por causa da vasopressina de outras químicas que a conduzem a querer mais empatia. Melhor seria repetir a dose.– Claro que sei, mas gostava de fazer assim.– Com isso você tinha a fama de gentleman, de cara romântico e a gente de cafajeste. Lembra que a namorada de Cláudio largou ele por que o cara não quis leva-la para jantar depois do vapt vupt e olha que o motel era no Imbui e o restaurante na Ribeira. Que desatino!– Lembro por que ela veio namorar comigo e Cláudio ficou meu inimigo até hoje.– E as meninas lá da república onde a gente morava? Você namorou todas com essa sua mania de não esquecer data de aniversário, Dia da Mulher, Natal e até no São João você oferecia balas de jenipapo trazidas do interior.– Até hoje faço isso com minha mulher.– Rapaz, vê se muda, está prejudicando os amigos. Lembre-se que você tem filho e que não vai se ligar nessas coisas e filha que vai se ligar e não vai achar namorado que faça igual a você. Aliás, tome tenência. Tenha ética.*Escritor: autor do livro “Histórias da Bahia – Jeito Baiano” e “Vulgar”, dentre outras obras
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