Espetáculo que adapta a obra-prima ‘Viva o Povo Brasileiro’ tem sessões em Salvador

Em 1984, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro publicou uma epopeia brasileira. Um livro ambientado em Itaparica, com jornadas heroicas e de carne e osso ao longo de 400 anos de país, com o humor crítico que lhe era característico. Quatro décadas depois, Viva o Povo Brasileiro continua pertinente nas provocações, e é base para uma versão teatral que já passou por palcos de todo o país. Agora, o espetáculo retorna a Salvador, para novas apresentações no Teatro Jorge Amado de 3 a 6 de abril.Com direção de André Paes Leme, direção musical e trilha original de João Milet Meirelles e 30 músicas originais compostas por Chico César, o musical Viva o Povo Brasileiro (De Naê a Dafé) traz, em quase três horas, a história da formação do povo que faz o Brasil ser o que é e ter as caras que tem – diversas, complexas, de pessoas cheias de dores e amores. No elenco, estão Alexandre Dantas, Hugo Germano, Jackson Costa, Cris Meirelles, Jesus Jadh, Ju Colombo, Júlia Tizumba, Luciane Dom, Maurício Tizumba e Sara Hana.Desde a primeira temporada de apresentações, o musical acumula participações em premiações: venceu o Prêmio Shell na categoria “Melhor Ator” com Maurício Tizumba e foi indicado em mais três categorias – Música Original e Direção Musical, Melhor Direção e Melhor Figurino. Também foi indicado ao Prêmio APCA nas categorias “Melhor Espetáculo” e “Melhor Ator” e no Prêmio APTR na categoria “Melhor Música”.Ambientado em Itaparica, Viva o Povo Brasileiro passa por momentos históricos do país, como a Guerra de Canudos. A trama conta a história de uma alma que quer ser brasileira, e continua morrendo e reencarnando em personagens que traduzem a construção do país, galgada em abusos e lutas por igualdade e justiça social. Nos palcos, os percalços dessa trajetória nacional tomam forma a partir de três figuras: Caboclo Capiroba, o Alferes e Maria Dafé, três encarnações da alma desejosa de ser brasileira.Adaptar um livro de 700 páginas é um trabalho árduo. Para o diretor André Paes Leme, o estudo começou dentro da investigação do Doutorado em Teatro. “Fiz um trabalho inicial de mapeamento de toda a narrativa e depois organizei a obra em três partes. Esta primeira parte vai da chegada dos primeiros portugueses até o despontar da força revolucionária da personagem Maria Dafé, a protagonista feminina do romance. Não foi fácil abrir mão de passagens tão bem descritas e desenvolvidas por João Ubaldo, mas era necessária para ficar mais apropriado para o tempo teatral”, conta.As canções do mestre Chico César e os arranjos de João Milet Meirelles completam com chave de ouro a adaptação. A montagem conta com três músicos e dez atores que interpretam, cantam e tocam. Além do elenco fixo, um coro composto por atores iniciantes e estudantes dá ainda mais força ao espetáculo.O musical nasceu do interesse do diretor em um teatro que tem como fonte a narrativa literária e, além disso, um romance que dialogasse com a história do Brasil. “Viva o Povo Brasileiro é uma obra muito rica, instigante para a criação cênica. Perpassa por uma variação imensa de atmosferas. Me interessava a ideia da ancestralidade, da religiosidade e da identidade brasileira”, diz Paes Leme. Esse desejo já o levou a adaptar outros clássicos da literatura para os palcos, como A Hora da Estrela ou o Canto de Macabéa e ‘A Hora e Vez de Augusto Matraga’.Transformar pontos da obra em canções que embalassem o espetáculo foi um trabalho prazeroso para Chico César: o livro está entre seus cinco favoritos. Para a composição das músicas, revisitou as páginas já conhecidas e explorou o roteiro feito por André Paes Leme.“Eu compus mais do que o diretor pediu. Sempre faço isso, acabo me empolgando, botando música onde ele não havia pedido”, brinca. “E o João Milet cuidou da direção musical. Quando a gente se encontrou, muitas músicas já estavam compostas, e a montagem que ele deu, a distribuição das vozes, a instrumentação, tudo isso foi maravilhoso, me surpreendeu muito. É um prazer enorme, eu acho ele um artista incrível”, diz.Ao ler a adaptação de André e ouvir as canções propostas por Chico César, João Milet percebeu que havia ali a proposta de mostrar um Brasil plural, com as múltiplas culturas que formam esse povo, de Norte a Sul. Segundo ele, isso fez com que a história não se prendesse apenas à localização original, mas retratasse a diversidade do país como um todo.“Nesse ponto, foi muito bonito ter a pluralidade que tivemos no elenco, pudemos levar para o palco e para a música suas próprias referências e tradições, na colaboração que trouxeram na criação dos arranjos. A partir daí, foi o trabalho de traçar o caminho narrativo do espetáculo através dessas diversas musicalidades que compõem nossa história, mantendo a consistência da proposta da direção”, explica João.Um passado dolorosoNeste épico da cultura brasileira, Jackson Souza garante a presença baiana no elenco. O ator se desdobra em vários personagens, mas seu maior papel na montagem é Amleto, personagem eugenista e dotado de um complexo de vira-lata. Segundo ele, o processo para entrar na personagem foi um dos mais dolorosos e difíceis da carreira.“No começo dos ensaios, o diretor André Paes Leme disse pra mim: ‘Jackson, me desculpa, mas o Amleto é você quem vai fazer’. Eu disse para ele ficar tranquilo, que ator é para isso mesmo, é para cumprir, fazer o que tem que ser feito. Dias depois, estudando as falas profundamente, para sentir o que o personagem fala, eu senti o peso das atrocidades que Amleto faz com a própria mãe, uma preta retinta, que ele, um pardo que quer ser branco, nega a existência. Tem coisas que ele diz sobre o povo, de modo geral e, principalmente, contra o povo negro, que não tenho coragem de repetir a não ser no espetáculo. Não foi fácil olhar nos olhos de uma atriz negra e dizer com propriedade que cabe a um ator, o que Amleto diz. Isso mexeu e ainda mexe muito comigo. E o teatro serve também pra isso, para o aprimoramento da alma de quem faz e de quem assiste”, diz.Segundo ele, percorrer o país com o espetáculo e retornar para a Bahia, sua própria terra e pano de fundo da obra, é gratificante. De acordo com o ator, fazer essa peça em palcos baianos é diferente de outros lugares.“Vi isso em todos os atores e profissionais envolvidos e também me percebi muito mais vibrante e entusiasmado por estar aqui em Salvador, onde se passa essa história, onde muitos que viram a peça conheceram João Ubaldo Ribeiro, inclusive alguns familiares que se emocionaram muito. A peça é o livro encarnado, que aqui, funciona como um espelho na frente do público. O Brasil precisa ler esse livro e ver essa peça”, conclui.Viva o Povo Brasileiro (De Naê a Dafé) / A partir de hoje até domingo (6) / Hoje e amanhã às 20h, sábado 19h e domingo 18h / Teatro Jorge Amado / Ingressos entre R$ 25 e R$ 100 / Vendas: Sympla e bilheteria do teatro / Classificação: 14 anos*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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