Ritualização da morte no candomblé é tema de livro com lançamento hoje

O antropólogo soteropolitano Fábio Batista Lima transita entre os principais estudiosos das chamadas religiões de matrizes africanas na Bahia e, por consequente atuação, de todo Brasil. Agora, apresenta, no formato de livro, o resultado de suas pesquisas desde 2012, quando iniciou seus estudos de pós-doutoramento na Universidade Federal da Bahia, onde também se graduou e se formou em bacharel e mestre em Ciências Sociais.Este doutor em Estudos Étnicos e Africanos (CEAO-UFBA), é adepto do candomblé, Ogã de Oxum, no terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, e um habilidoso construtor de narrativas socioantropológicas que vão desde as experiências cotidianas no terreiro até possíveis etnografias sensoriais nos moldes de Paul Stoller. Professor da Rede Oficial de Ensino da Bahia, ensina em Nível Médio a disciplina Sociologia, cativando um bando de estudantes para o fazer sociológico.Empenhado em fazer ciência na Bahia, como ele mesmo diz “sem bolsa, numa Academia restritiva, onde grande parte dos pesquisadores não tem o respeito e o incentivo necessário para dar prosseguimento aos seus estudos. A gente vai no desejo de fazer bem feito e publicar”.O livro que vivifica a morteFábio Lima lança hoje, quarta-feira, a partir das 17h., no Museu de Arte Moderna da Bahia, o livro que traz o resultado de suas pesquisas de mais de 13 anos, supervisionadas pela professora da Ufba Mirian Rabelo. O livro Os iniciados no mistério não morrem: Axexê, ritos mortuários no candomblé (Ed. Contracorrente, SP), já chega referendado por especialistas como obra incontornável para os estudos sobre a ritualização da morte nos terreiros, que, nos candomblés nagôs, é chamada de axexê. A narrativa flui, nos convidando a conhecer o que o autor, fundamentado em relevante literatura antropológica, problematiza e disseca, as complexas camadas que fazem o fenômeno da morte no candomblé, sem ferir os caríssimos fundamentos que precisam ser salvaguardados no existir diverso das várias casas de santo em suas diferentes nações e transnações.“Além da minha implicação como homem negro, baiano, do candomblé, estudei em meu doutorado, os sentimentos e as emoções no universo religioso dos terreiros, destacando a saúde mental. No fundo, não escolhi este tema, ele me escolheu, é um desdobramento do que já havia estudado, e na introdução explico que o axexê, Oyá, Santa Bárbara, me acompanham como intrigação desde criança, faz parte da minha memória mais remota”, conta o autor.Fábio Lima destaca a importância dos orixás Oyá, Nanã e Omolu nos rituais de axexê, que segundo o autor pode ser traduzido como ancestral, ele também destaca a importância de Oxóssi, que na liturgia nagô seria o primeiro Axexê.A importância desta obra repousa em aprofundamentos sobre o fenômeno da morte no candomblé, tratando da construção da entidade “egum”, o espírito do morto, e a sua convivência, a partir dos rituais, como uma entidade ancestral cultuada no cotidiano de sua comunidade espiritual. O texto do antropólogo nos faz crer que no candomblé, a morte é vivificada, é festejada, e elaborada como um “corpo-ausência” que passa a ser um corpo etéreo presente no mundo da vida dos sujeitos que compõem a comunidade do morto tornado egum.Eguns – os seres invisíveisAo estudar a ritualística da morte nas religiões afro-brasileiras, o antropólogo perfila o muito das contribuições filosóficas das sociedades africanas que chegaram ao Brasil no desumano período da colonização e o seu processo de escravização dos corpos negros, indígenas e pobres.A narrativa se filia à linguagem científica dos bons etnógrafos e nos mergulha em muitos momentos de fruição poética e de comoção socioexistencial por algumas difíceis experiências enfrentadas pelo autor ao longo da sua existência como um ser negro e gay, agredido pela homofobia desde criança. Perguntado sobre se a experiência nativa lhe foi maior do que a científica na escrita do livro, o autor sentenciou: ”Fiz uma antropologia e não uma teologia. Meu interesse foi entender a morte na cultura afro-baiana, em seus elementos religiosos, buscando exotizar o familiar, para descrevê-lo em suas camadas profundas, dialogando com autores que me permitissem este mergulho. Busquei a antropologia e o constrangimento que ela provoca. Me fiz perguntas que o nativo não faria por causa do seu envolvimento. E ainda assim, respeitei os fundamentos, então não faço nenhuma devassa sobre os mistérios desta religião”.Pensar na morte como é tratada na sociologia do professor Fábio Lima, neste livro, nos leva ao entendimento da inexorabilidade deste fenômeno, entendendo-o como um rito de passagem sine qua non para o exercício da vida. O povo de santo afirma: os iniciados no mistério não morrem. Portanto, a morte não é o fim do sujeito. Ao morrer, o sujeito deixa de ser corpo físico, e é preparado para se tornar um corpo etéreo, que no candomblé nagô é chamado de egum. Egum, em analogia ao mundo católico, seria o espírito do morto. A obra discorre com desenvoltura e profundidade sobre o tema axexê, e vale ressaltar que a perspectiva da obra parte da experiência nagô, ainda que toque no chamado Mucondo dos congo-angolas e no Sirrum dos jejes, a força analítica da narrativa repousa no universo dos terreiros tradicionais conhecidos como de nação ketu ou nagô.A esteira é a pele do chãoA linguagem poética é outro destaque. Nos faz imaginar melhor os fenômenos descritos e a perguntar: por que a esteira é a pele do chão? Lima responde que o chão é de suma importância para os cultos espirituais empreendidos pelo candomblé. A esteira, chamada de “eni”, cobre o chão para a iniciação das iaôs, e salvaguarda uma ligação espiritual indestrutível dos membros de uma casa de santo e seu legado ancestral. Os atabaques, as cabaças, os aguidavis. As comidas rituais, as danças específicas para as noites de axexê. As roupas brancas, as cabeças humanas encarnadas cobertas, a palha da costa, as moedas, as velas, a areia, o giz, o silêncio, tudo isso compõe o fazimento do egum, sua transformação em ser ancestral de uma família espiritual que pode ser consanguínea ou não.“Trago aqui a narrativa da minha memória, de linhas que cruzam experiências, seres invisíveis dotados de força e sua conexão ao ritual do axexê. E o axexê é um evento nos candomblés no qual, ao mesmo tempo que se vive um presente, projeta-se um futuro para o terreiro, mas se resgata, valoriza e enaltece um tipo ideal de passado. A minha afeição ao axexê está ligada às minhas memórias, o que me ajudou a chegar a este texto dos ritos fúnebres do candomblé. Foi como se os tambores, cabaças, ixãs, entre outras coisas sagradas, e a Iansã dialogassem comigo a todo tempo da escrita e me apelassem para escutá-los”, conta, na introdução.O prefácio da grande professora Miriam Rabelo, banhada em tantas teorias, referenda: “Não preciso mais justificar por que considero o livro de Fábio uma leitura fascinante e indispensável para estudiosos e curiosos do mundo das práticas de matriz africana”.Lançamento: Os iniciados no mistério não morrem (Contracorrente, R$ 75, 318 p.) / Hoje, 17h / Museu de Arte Moderna da Bahia – MAM-BA
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