A universidade sob vigilância: memória e os legados da ditadura

O golpe militar de 1964 foi consumado em 1º de abril, mas até hoje há quem tente reescrever sua história. O que começou como uma intervenção armada contra um governo legitimamente eleito se consolidou em uma ditadura que se estendeu por 21 anos, marcada pela repressão política, censura e perseguição. Engana-se quem pensa que essa repressão se limitou aos grandes centros urbanos. Em cada canto do Brasil, houve resistência — e, com ela, vigilância.

A história de Mossoró, município do estado do Rio Grande do Norte, revela que o regime não poupou esforços para monitorar e reprimir qualquer sinal de contestação, mesmo longe do eixo Rio-São Paulo-Brasília. A então Universidade Regional do Rio Grande do Norte (URRN), atual Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), e a Escola Superior de Agricultura de Mossoró (Esam), hoje Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), foram alvo constante do Serviço Nacional de Informações (SNI). Relatórios do período comprovam que a atividade acadêmica e os movimentos estudantis eram vistos como ameaças ao regime.

No início dos anos 1980, quando a ditadura ensaiava sua abertura política, o SNI ainda acompanhava de perto a vida universitária. Documentos revelam o monitoramento de eventos como Partidos Operários no Brasil, Ontem e Hoje, realizado na URRN em 1982, e a V Semana de Filosofia do Rio Grande do Norte, em 1984. As investigações do regime atingiam professores, estudantes e lideranças políticas que questionavam o autoritarismo. Mesmo após o fim formal da ditadura, em 1985, o entulho autoritário persistia, como demonstram registros da repressão à greve estudantil da Esam naquele ano.

Nesta quarta, 2 de abril, o Ministério Público Federal promove uma audiência pública sobre esse passado. O evento, que ocorre no auditório da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (Fafic), no Campus Central da Uern, discutirá os 61 anos do golpe e os persistentes legados da ditadura. É uma oportunidade para revisitar a história e compreender como esse passado ainda ressoa no presente.

Se há uma lição que a experiência brasileira nos ensina, é que a democracia não é um dado permanente, mas uma construção diária. O golpe que derrubou João Goulart foi arquitetado em 1964, mas novos ataques à ordem democrática continuam a rondar o país. Em 2023, o Brasil assistiu à tentativa de golpe de Estado tramada pelo então presidente Jair Bolsonaro e um grupo de militares, que cogitaram até mesmo assassinar autoridades eleitas. A história se repete quando não é enfrentada.

Resgatar as memórias da ditadura não é apenas um exercício acadêmico. É um compromisso com aqueles que resistiram, com aqueles que sofreram e com aqueles que ainda buscam justiça. E, sobretudo, é um alerta para que o passado não se transforme em futuro.

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