Grátis! Salvador recebe a mostra ‘Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira’

A cultura negra está presente em cada canto de Salvador, mas é ali no Centro Histórico, coração da cidade, que ela explode: se manifesta na arquitetura, nos ritos e nas expressões artísticas. Não podia ser em outro lugar, então, a instalação da exposição Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira, que passa a ocupar hoje, às 10h, o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab). A entrada é gratuita.Entre fotografias, pinturas, vídeo-performances, esculturas, peças têxteis e muitas outras expressões artísticas, são mais de 150 obras distribuídas ao longo dos dois primeiros andares do museu. Os trabalhos, que partem de diferentes materialidades e formatos, foram produzidos por 69 artistas, dos quais 12 são baianos.A mostra tem curadoria do pesquisador, curador e jornalista Deri Andrade. Já a expografia é do arquiteto e cientista social Matheus Cherem, e a produção técnica e executiva ficou por conta de Vinícius Andrade e Vitória Mazzaro.“O público vai perceber de que maneira a produção negra esteve presente ao longo dessas décadas no Brasil, de que maneira essa produção se comportou e de que maneira trabalhou a partir dos próprios territórios. Então, é uma escolha que tem relação com esse novo modo de pensar a produção de arte no Brasil a partir da referência de arte afro-brasileira”, afirma Deri.Antes de Salvador, a exposição passou por São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Por aqui, a mostra, que faz parte da programação do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), chega como um presente de aniversário para a capital baiana, tendo início bem no dia da sua fundação.Além disso, outro presente é receber a exposição ampliada: desde que foi montada pela primeira vez, Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira nunca contou com tantos artistas e obras como na montagem de Salvador, de acordo com Deri.“Salvador é uma cidade que representa uma produção de arte negra excepcional. Muitos nomes que hoje são referências para a arte no Brasil são baianos e, inclusive, estão na exposição. Outro ponto muito importante é abrir essa exposição no Muncab, que é também uma referência e inspiração para pensarmos a produção de artistas negros no Brasil”, diz o curador.A abertura inclui a performance Do Que São Feitos os Muros, do artista Davi Cavalcante, que acontece a partir das 13h. Na obra, Cavalcante constrói um muro com tijolos gravados com palavras, numa reflexão sobre a construção das relações humanas e seus impactos nos territórios.Cinco homenagensPara pensar diferentes aspectos da arte afro-brasileira, Deri dividiu a exposição em cinco eixos: Tornar-se, que destaca o ateliê do artista e o autorretrato; Linguagens, dedicado aos movimentos artísticos; Cosmovisão, que aborda engajamento político e direitos; Orum, sobre as relações espirituais entre céu e terra no fluxo Brasil-África; e Cotidianos, que discute representatividade.Cada um dos eixos tem como base um artista negro emblemático do país: Arthur Timótheo da Costa (Rio de Janeiro), Rubem Valentim (Salvador), Maria Auxiliadora (Campo Belo, MG), Mestre Didi (Salvador) e Lita Cerqueira (Salvador), respectivamente.Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira mostra a pluralidade da arte feita por mãos negras através da união de diferentes gerações, promovendo um diálogo direto entre artistas recentes e nomes que foram e continuam sendo essenciais para a construção da arte negra no brasil. Ao mesmo tempo que homenageia Lita Cerqueira e Rubem Valentim, por exemplo, a exposição tem obras de artistas mais jovens, como Massuelen Cristina e Adriano Machado.Em seu trabalho As Margens do Velha, Massuelen celebra as mulheres que a criaram, através de retratos de sua avó, Dinorá, da mãe, Sueli, e de sua tia Simone. “As Margens traz retratos de mulheres que cresceram e constituíram as suas histórias às margens do rio das Velhas, em Sabará (MG). Eu trago essa representação a partir do olhar da minha família”, diz.Para Machado, artista natural de Feira de Santana, a chegada da exposição à Bahia anima e provoca. “Na Bahia, apesar de termos a cidade mais negra do Brasil, ainda lutamos contra violências, movimentos de apagamento e silenciamento da nossa capacidade crítica e construtiva. A exposição reúne um grupo de artistas que, através de suas obras, repensam e reinventam possibilidades para mostrar como a população brasileira inventa, a partir de seu território e de seus afetos, modos de construir políticas de vida”, defende.Na série Estudos sobre Natureza Morta, que integra a mostra, Machado trabalha com esse gênero de pintura unindo-o ao imaginário da negritude. Ao longo de cinco anos, carregou consigo toalhas de mesa estampadas com flores e frutas. Sempre que encontrava um cenário interessante, chamava os primos, que foram seus modelos neste trabalho, e os fotografava.“Acho que esse é o gênero da arte mais popular, todo mundo tem um pano de prato em casa com flores e frutas pintadas. E isso significa fartura para nós. Eu tenho uma fascinação por esse tipo de pintura e durante alguns anos quis construir meus estudos sobre natureza-morta num lugar que retrate nosso cotidiano, mas que também fale da tradição da pintura, do passado”, conta.Além das obras que já fazem parte dos acervos dos artistas, seis das 69 produções da exposição foram comissionadas, ou seja, feitas especialmente para esta exibição. Entre elas, estão Caminho, trabalho em crochê da artista Lídia Lisboa, e a série fotográfica Idiossincrasias, de Vitu de Souza.Mapeando artistasTodos os artistas que fazem parte da exposição estão mapeados no Projeto Afro, plataforma criada por Deri em 2016 para reunir e catalogar a arte afro-brasileira num só lugar. Foi a partir desse mapeamento que ele selecionou os artistas da mostra.“O Projeto Afro nasceu da falta que eu sentia de um lugar que reunisse essa produção de artistas. Eu sentia a falta de organizar essa produção para que o público pudesse conhecer a produção de artistas negros em todo um contexto cronológico, mas num contexto também geográfico”, diz o curador.Na exposição, uma sala se dedica à plataforma, com dois tablets, através dos quais os visitantes podem acessar o site do projeto e visitar o acervo. Além dos artistas, a plataforma reúne artigos, entrevistas e dissertações sobre arte brasileira, assim como uma agenda de eventos e exposições que têm como foco a produção de artistas negros. Hoje, a iniciativa reúne 330 artistas de todas as regiões do Brasil. De acordo com Deri, o objetivo é chegar a 400 ainda este ano.Exposição Encruzilhadas da Arte Afro-Brasileira / de 29 de março a 31 de agosto / terça a domingo, das 10h às 16h30 / Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), Pelourinho
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