A cozinha

cozinha

Enquanto aguarda o horário da partida de seu ônibus, um jovem de cabelos desgrenhados e bigodinho divide um grupo de assentos na rodoviária com um velho de longos e ralos cabelos. O garoto tem sob suas pernas uma grande mochila de aventureiro. O ancião carrega apenas um embornal cáqui e um violão ensacado em uma capa ruça como ele. O rapaz puxa conversa.
– O senhor é músico?
O velho sorri.
– Deu pra perceber?
– O violão, o cabelo comprido – justifica o Bigodinho.
– Pois é. Mas não, não me considero músico. Seria uma ofensa aos músicos de verdade. Eu só gostava de tocar meu violão em casa, na companhia dos amigos, da família.
– Então é músico, uai.
– Se você acha.
– Digamos que o senhor faz só shows particulares, que tal?
O velho ri. O garoto é espirituoso, ele pensa.
– É uma boa maneira de se colocar. Na verdade o meu grande “palco” era a cozinha da casa da minha mãe. Era ali que a gente se reunia, bebia cerveja, fazia tira-gostos e tocava e cantava até altas horas. Eu, minhas irmãs, meus cunhados, meus primos, alguns poucos amigos, todo mundo cantando, batucando.
O velho faz uma pausa breve. Seus olhos fixos no chão, como que buscando no piso da rodoviária a cor de uma nota musical. E continua:
– Então eu te pergunto: é “show” quando todo mundo é protagonista?
O Bigodinho não soube responder.
– Não, meu jovem, eu não era músico e tampouco fazia show. Era mais um animador que, por acaso, sabia fazer vibrar as cordas e cantar uns refrões na cozinha de casa.
– E não mais? Você só fala no passado.
– Não mais. Minha mãe se foi há muito tempo, as visitas das minhas irmãs foram se tornando mais raras e a geração de sobrinhos e primos já não tem interesse por aquelas canções. A cozinha silenciou, por assim dizer. Eles preferem se reunir na varanda em torno de uma caixinha de som e escutar as coisas modernas. É bom também. Pelo menos continuamos juntos.
Mas o Bigodinho percebe que não é tão bom quanto ele diz. Ou pelo menos não tão bom quanto fora no passado.
– Mas você ainda toca.
– Ah, não, toco não. Meu tempo passou.
– Então por que você continua carregando o violão?
– Não é bem o violão que carrego comigo.
O Bigodinho olha o velho com um ar confuso. O que haveria ali no interior da capa desbotada então?
– Rapaz, aí dentro o que eu levo não é um instrumento. O que eu carrego dentro dessa sacola são os acordes, as cantorias, o som daquela cozinha.

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