A diarista de Franz Kafka

No momento de fragilidade, no qual precisava da proteção da lei, por conta de violência doméstica, a diarista Débora não foi acolhida na delegacia de polícia, mas o pior estava por acontecer: acabou presa como foragida.Apreciadores da melhor das literaturas vão lembrar Franz Kafka, escritor de código estilo marcante, destacando-se extremos disparates e absurdos, como no caso da vítima, presa ao prestar queixa, sem jamais retornar ao Minas Gerais, local da ocorrência.A vida imitou a arte: o nome completo da vítima é Débora Cristina da Silva Damasceno, enquanto a mulher procurada por tráfico de psicoativos não tem o “Silva”, embora assim esteja registrado, em “equívoco” assumido placidamente pela corte mineira.Produziu o “equívoco” as dores psíquicas da calúnia e da difamação na cidade, duas vezes sob ataque, uma do ex-companheiro autor de violências; e outra pelas violências de inépcia ou negligência do Estado.Mesmo ao voltar ao aconchego da família, livre dos dois pesadelos “reais”, ela agora acorda bruscamente de madrugada, alarmada por sombras de cadeado e barulhos de celas: lembranças de brutal angústia.Débora passou três dias e três noites na cadeia de Benfica, no Rio, com 23 presas, submetendo-se a dormir no chão frio, em meio a roedores, embora a direção prisional alege ter oferecido melhores acomodações.Não se descarta intencionalidade, pois a confusão poderia ter encerrado uma inocente, beneficiando a acusada, se a trama tivesse prosperado para um final infeliz.Livrando-se de flagrante omissão, o Conselho Nacional de Justiça solicitou explicações para saber por que a trabalhadora ainda ficou detida depois de confirmado engano, aguardando o burocrático trâmite de envio de documentação.A tendência, pelo que se observa no cotidiano do “jeito de ser” das instituições da república, é a vitória do corporativismo, mas bem que a Débora diarista e toda a cidadania mereciam a apuração rigorosa para punir possível desvio por parte do servidor “equivocado”.
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