Águas de março fechando o verão (e promessa de caos em Natal)

Desde sempre que nascidos e residentes em Natal sabem que chove muito, mas muito mesmo, no mês de março. Possivelmente o indígena Filipe Camarão sabia disso lá nos idos de 1600, quando lutava contra contra os holandeses, assim como antes deles os fundadores da cidade do Natal em 1599, às margens do Rio Potengi. Só não sabe dessas chuvas quem governa (sic) a capital potiguar, que sempre se mostra, digamos, surpreso com o impacto das chuvas fortes sobre a estrutura dos bairros e da cidade.

É uma mistura de negligência com falta de planejamento com torcida para não chover, creio. Nem acho que se trata de um descaso deliberado da atual gestão, que assumiu há apenas três meses (embora desde a vitória em outubro o prefeito e sua possível equipe soubessem que tomariam posse e que em março, após o verão haveria chuvas fortes) mas de um problema crônico. Nenhuma gestão em Natal consegue planejar ações de maneira a diminuir o impacto das chuvas para os moradores da cidade.

Algumas medidas parecem básicas até para quem não tem nenhuma noção de engenharia urbana. Realizar nos meses anteriores a março obras de drenagem intensas nas áreas historicamente mais atingidas. Obras emergenciais em janeiro e fevereiro nas vias principais, com recapeamento de buracos e alinhamento de desníveis. Trabalhar em parceria com a população para não entupir com lixo canais de passagem de água e de escoamento de água.

Particularmente neste 2025, as águas de março em Natal não apenas causaram os transtornos de sempre para comunidades (principalmente periféricas) mas evidenciaram a pressa e precariedade da obra da engorda da praia de Ponta Negra, já que a cada chuva (que nem precisa ser das mais fortes) surgem empoçamentos de água suspeita, que a prefeitura chama eufêmica e cinicamente de “espelhos d´agua”. Que não apenas enfeiaram o principal cartão postal de Natal como afastaram nativos e turistas e prejudicaram os comerciantes (que na teoria seriam os maiores beneficiados pela famigerada engorda).

Aliás, lendo sobre a engorda em Ponta Negra, registro falas dos especialistas de que em obras de engorda da faixa de areia, troca-se o banho de mar por mais espaço na areia para atividades diversas, assim como exploração do entorno (parques, praças, áreas de esporte (caso clássico do Aterro do Flamengo). O que em Natal não foi feito. Qualquer pessoa que caminhe pela orla de Ponta Negra, o que é o caso deste escrevinhador, que frequenta quase semanalmente a praia de Pontas Negra, sabe que o calçadão é há muitos anos um abandono só: banheiros públicos quebrados e disfuncionais, calçada deteriorada, falta de padronização, poluição sonora. Ponta Negra é linda e charmosa, mas é um caos. Mas não deve fazer diferença para os gestores, afinal, tanto o prefeito atual como o anterior, assim como os secretários e os engenheiros da engorda não frequentam Ponta Negra, mal devem ter pisado lá. Mas aí é tema para outro texto.

Por ora, parafraseando o clássico de Tom Jobim, para os natalenses as águas de março fecham o verão, mas não trazem promessa de vida para nossos corações e sim caos.

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