Quando sobreviver ao clima depende do CEP

O calor não se espalha igualmente. Ele se acomoda nos corpos, nas ruas dos bairros, barracas e casas de palha, de telha quente e de concreto sufocante. Ele queima mais forte onde a cidade se esqueceu de ser justa. E quando uma onda de calor varre o planeta, como esta que nos aflige agora, ela não é apenas uma questão de temperatura. Ela é uma revelação: um espelho que reflete a desigualdade de um mundo que nunca se preocupou em dividir a brisa da mesma maneira que divide o fogo.

Nas periferias do Brasil, como na Baixada Fluminense, a onda de calor não significa apenas desconforto. Significa que a menina que volta da escola caminha sob um sol sem sombra. Significa que a avó, que sobrevive com o mínimo, não tem ar-condicionado para aliviar o peso da tarde. Significa que os trabalhadores que constroem os arranha-céus de vidro, onde poucos sentem o calor do lado de dentro, são os mesmos que saem de bairros onde o asfalto arde sob os pés.

E isso não acontece apenas no Brasil. Em cidades como Nova Déli, onde o ar poluído torna impossível até respirar, o calor e a poluição matam silenciosamente, como uma punição que escolhe seus alvos. Nos bairros operários da Índia, onde as árvores são menos comuns, as estatísticas mostram que as taxas de mortalidade aumentam em dias extremos. O calor, em sua brutalidade, sempre encontra aqueles que têm menos. Ele não é um fenômeno democrático. Ele segue a trilha da pobreza, do racismo ambiental, da falta de privilégio.

O que vivemos agora não é apenas uma questão climática. É uma questão de justiça. Quando falamos de mudanças climáticas, falamos também de quem tem o direito de existir com dignidade. Precisamos falar sobre quem sente essas mudanças primeiro e mais profundamente. De quem é o calor? De quem é o frescor? Quem tem o privilégio da sombra? Enquanto as elites se protegem com suas soluções individuais – ar-condicionado, piscinas, refúgios em cidades costeiras –, as periferias ardem. E assim, o calor se torna mais uma linguagem da exclusão, um lembrete de que até as estações do ano obedecem à lógica da desigualdade.

O Brasil, no entanto, com sua força popular e suas favelas que resistem e criam, carrega algo que o diferencia: sua cultura de reinvenção e conexão com a natureza. O país abriga o Aquífero Alter do Chão, uma das maiores reservas de água potável do mundo, fundamental para a segurança hídrica global. E, além de preservar, o Brasil também imagina e põe em prática ações sustentáveis para um mundo onde tecnologia e ecologia caminham juntas. A Amazônia, apesar das ameaças constantes, ainda representa um dos últimos grandes respiros do planeta, regulando o clima e servindo como um laboratório natural para soluções sustentáveis. O uso de agroflorestas na Amazônia, técnica milenar que equilibra produção de alimentos e preservação ambiental, está sendo estudado por cientistas do mundo todo como uma alternativa viável à monocultura destrutiva.

Já existem iniciativas nas favelas brasileiras que transformam lajes de concreto em telhados vivos, resgatam sistemas ancestrais de captação de água da chuva e constroem cidades mais humanas a partir da inteligência coletiva das periferias. Diante de um planeta em crise, o Brasil vem ganhando reconhecimento internacional em projetos inovadores e pode ser um farol de possibilidades para o futuro. Um modelo onde natureza, tecnologia e justiça social andam lado a lado. Porque não há justiça climática sem justiça social.

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