O maracujá que tinha jeito de melão e gosto de espuma de Carnaval

Nesta coluna, juízes do TJBA publicam suas reflexões. E aí, caro leitor, você deve estar se perguntando: o que um maracujá, melão ou espuma de carnaval teriam a ver com um artigo escrito por uma Juíza?Pois bem. Cresci no interior do Rio de Janeiro, em um quintal imenso repleto de frutas. Jambo, abacate, jaca, acerola, amora … Talvez por isso, sempre me considerei uma espécie de especialista em frutas.Atualmente, moro em uma cidade muito acolhedora no interior da Bahia. E foi aqui que minha suposta expertise em frutas encontrou seu primeiro grande desafio.Ganhei uma fruta chamada “maracujina”. Consultei o oráculo google: “também chamada de maracujá-doce, melão-pepino ou maracujá-mamão”. Li comentários que diziam “é igual maracujá, só que docinho”.Ao chegar em casa, já com grande expectativa para saborear o maracujá tão doce, percebi que a fruta tinha cheiro, cor e jeito de melão. As sementes pareciam de melão. A consequência natural foi, então, partir uma fatia, separar as sementes e comer igual melão.Qual não foi a minha surpresa, a fruta tinha gosto de … espuma de carnaval! Eu não admitiria desistir de uma fruta. Mastiguei aquela “espuma” até o fim.No dia seguinte, me disseram que a parte branca não se come assim que nem melão. As pessoas fazem suco ou mingau. E a pessoa que me deu havia alertado sobre isso, anteriormente. Mas eu não consegui seguir, simplesmente porque achava estar diante de um melão! E, melão, minha gente, eu conhecia muito bem!Fiquei pensando sobre aquilo… nem tudo que parece melão deve ser tratado como melão.Nossos conhecimentos prévios são como lentes através das quais enxergamos o mundo (e não poderia ser diferente).A questão não é ignorar essa experiência. Afinal, como eu poderia – ou por que deveria – apagar todos os melões da minha mente?O ponto era outro: deixar que aquele maracujá doce baiano conversasse com minha experiência carioca de quintal.E é aí que maracujá, melão e espuma de carnaval se conectam com a magistratura.Como juíza, carrego anos de estudo, jurisprudência, doutrina. Como pessoa, trago comigo uma história de vivências, valores, entendimentos. Não há como, nem por que, tentar me despir disso ao analisar cada caso.O desafio da magistratura, como o do maracujá-doce, não é fingir que podemos julgar a partir de uma folha em branco – é reconhecer que carregamos toda uma bagagem interpretativa e, ainda assim, estamos abertos para que cada caso nos mostre seus próprios caminhos.Entender que são justamente esses pré-conceitos, no sentido filosófico da palavra, isto é, compreensões prévias que construímos ao longo de nossa formação, que nos permitem interpretar e julgar.O filósofo alemão Hans-Georg Gadamer explica que reconhecer nossas próprias antecipações é essencial. E isso não nos limita, pelo contrário, é o que nos dá a chance de ver além delas.Mas, às vezes, mesmo quando alguém nos alerta que aquilo não é bem um melão, nossa pré-compreensão é tão forte que seguimos em frente, determinados, mastigando uma “espuma de carnaval” só porque não conseguimos ver além do que já conhecemos.O exercício interpretativo do Direito é diário. E a expansão dos horizontes de compreensão jurídica, também. Basta estarmos sempre atentos. E, quando menos percebemos, descobrimos que aquele maracujá combina perfeitamente bem com iogurte. Horizonte expandido.*Juíza da Vara Cível da Comarca de Morro do Chapéu (BA)
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